O patrimônio da humanidade corre risco

Enquanto a estátua de Nefertiti continua confortavelmente de cabeça erguida, na Ilha dos Museus, em Berlim, arqueólogos têm graves preocupações a respeito da herança cultural no país de origem da mesma, ou seja, no Egito.
Em meio aos recentes distúrbios políticos, sepulturas foram depredadas e peças foram encontradas esmagadas nos cantos de um famoso museu, enquanto manifestantes clamavam pela renúncia do ministro egípcio responsável pelo patrimônio histórico, Zahi Hawass, conhecido por sua perseguição agressiva de peças em acervos no exterior.
Hawass já havia sido arguido no exterior em função de seus relatos inconsistentes sobre um assalto ao Museu Egípcio em janeiro último. Enquanto inicialmente havia anunciado que 70 objetos teriam sido danificados pelos saqueadores, ele acabou revelando que 18 ou 19 peças ainda estariam desaparecidas, entre estas, objetos altamente valiosos, como uma estátua dourada de Tutancâmon e uma estátua de calcário do faraó Amenófis 4°, que, segundo Hawass, foi encontrada em uma lata de lixo.
Amplitude das perdas é desconhecida
O Museu Egípcio, no Cairo, reabriu suas portas este mês, mas são muitos os desafios a serem enfrentados e especialistas estão investigando a amplitude do vandalismo em todo o país. Gabriele Pieke, egiptóloga e secretária-geral do Comitê Internacional dos Museus Egípcios, afirma que, além do caso do Museu Egípcio, no Cairo, vários outros museus menores, tumbas e sítios arqueológicos foram seriamente saqueados.
Além disso, é provável que transcorram anos até que se entenda o que foi realmente roubado e as peças perdidas possam ser devolvidas a seus lugares de origem, já que vários sítios não dispõem da documentação necessária para tal.
Bildunterschrift: Zahi Hawass e estátua de Tutancâmon
“Será um desafio fazer listas concretas de exatamente todos os originais roubados”, diz Pieke. “E alguns terão que ser simplesmente dados como desaparecidos”, completa.
Embora o Conselho Internacional dos Museus (ICOM) tenha se empenhado na elaboração de listas juridicamente vinculativas de peças roubadas, as autoridades locais mantêm-se relutantes em colaborar com organizações internacionais, explica a egiptóloga. A Unesco também divulgou um apelo, este mês, em defesa de um controle minucioso do mercado de artes, a fim de prevenir a venda de bens roubados, conclamando as forças de segurança, agentes alfandegários, comerciantes de obras de arte e colecionadores para que fiquem vigilantes.
Pieke prevê que os próximos meses no Egito poderão transcorrer em um clima de bastante instabilidade, com muita gente tentando tirar proveito dos valiosos objetos no mercado negro interno do país. “O know-how das organizações internacionais não poderá ser implementado até que a situação política se estabilize”, diz ela.
A comunidade internacional deveria interferir?
Planos de longo prazo poderiam incluir uma ajuda aos museus no Egito para que estabeleçam medidas de segurança e de conservação de acordo com os padrões ocidentais, embora tais esforços já tenham sido feitos nos últimos anos.
No momento, os egiptólogos não mantêm uma postura coesa em relação ao melhor grau de envolvimento das organizações internacionais na questão. Sylvia Schoske, diretora do Museu Egípcio de Munique, acredita que a importância do turismo para o Egito e um sentimento dominante de orgulho nacional em relação à herança cultural do país não permitiriam que a situação saia do controle. Schoske acha que, antes de ficar interferindo nos assuntos internos do país, a comunidade internacional deveria acreditar que os próprios egípcios irão dar conta da situação.
“Os egípcios não estão sentados no deserto, acreditando em métodos do século 19″, diz a especialista. “Muitos dos nossos colegas obtiveram formação no exterior e dispõem dos recursos necessários. Exceto se eles vierem até nós pedir ajuda, interferir seria uma nova forma de colonialismo que não tem lugar no nosso tempo”, conclui.
Nefertiti como diplomata egípcia
Mesmo assim, a agitação política e notícias de vandalismo poderão enfraquecer a posição de Hawass em relação às peças egípcias fora do país. Seus principais alvos foram a famosa pedra Rosetta no Museu Britânico, e um busto de Nerfertiti, de 3.300 anos, no Neues Museum (Novo Museu), de Berlim, apontado por Hawass como sendo uma peça levada para a Alemanha sob falsas pretensões no ano de 1913.
Bildunterschrift: Nefertiti permanece em Berlim
No último 2 de janeiro, Hawass pediu, em carta à Fundação Prussiana de Herança Cultural, o retorno do busto ao Egito. Seu pedido contou também com uma assinatura oficial da administração Mubarak. O presidente da Fundação, Hermann Parzinger, respondeu, um mês mais tarde, que não teria intenções de mandar Nefertiti de volta.
“Ela é e continuará sendo a melhor diplomata egípcia em Berlim”, disse Parzinger na época. “A Fundação Prussiana de Herança Cultural tem grande interesse em uma cooperação harmônica com os egiptólogos e desenvolve, no momento, ideias para o trabalho em equipe”, acrescentou. Um porta-voz de Parzinger afirma que sua posição não mudou desde então.
Cooperação estreita
Enquanto especialistas concordam que a melhor maneira de contornar a situação é criar formas de cooperação estreita com as autoridades e especialistas no Egito, um clima de desconfiança e condutas inconstantes, dos dois lados, poderão prejudicar a transparência da comunicação e os esforços coletivos de proteção dos tesouros arqueológicos do país no futuro.
Schoske explica que, mesmo que tenha havido uma avalanche de críticas sobre Hawass recentemente, ele implementou várias mudanças positivas na conduta de seu país, como por exemplo ter limitado o acesso aos sítios arqueológicos, formado profissionais competentes e propiciado a publicação de relatórios científicos na língua local

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