Devoção x luxúria

No carnaval, éramos proibidos de sair de casa, porque o demônio estava à solta, podia corromper nossas almas infantis. Seriamos condenados ao inferno, as chamas nos devorariam por toda a eternidade. Anos 40, claro. A luxúria estava à solta. “O que é luxúria?” perguntávamos entre nós, crianças. A licenciosidade seduzia. O que é licenciosidade? O pecado estava pronto a nos consumir. Como seria bom ser tragado por ele. Ao caminhar para a igreja Matriz, meus pais evitavam que olhássemos, meu irmão e eu, para o Nosso Clube, cujos bailes eram na avenida XV de novembro, ao lado da padaria do Pazetto, hoje Flório. O Nosso Clube, animadíssimo, era o território dos pretos (não, não vou usar afrodescendente, meu termo não é pejorativo), onde estavam os melhores dançarinos da cidade. Luiz e eu ainda conseguíamos virar o rosto e vislumbrar mulatas esplêndidas que vinham descansar no jardim público. Imagens que me ficaram para sempre. Cada vez que atravesso o jardim , lembro-me delas, eram luxúria, perdição, paraíso, anjos, fadas sensualíssimas. Várias são avós hoje. Terão noção de como foram desejadas um dia?

Pequenos, tínhamos de ir à igreja, com o Santíssimo exposto permanentemente, para expiar os pecados do mundo. A palavra expiar me confundia. Espiar não é olhar? Então, íamos à igreja para olhar os pecados do mundo? Mas os pecados não estavam nos clubes, com aquelas fantasias orientais, as mulheres com as pernas de fora? Que confusão em nossas cabecinhas inocentes. Os pecados não estavam no corso? Porque havia corso de carros na Rua Três com mulheres decotadas. Algumas de seios opulentos. Bem, um dia meu pai explicou que havia uma diferença entre espiar, com S, e expiar, com X. O velho Totó era bom com palavras. Percebemos que a inocência era uma chatice, significava o mundo fechado. Na igreja não havia pecados e luxúria, havia orações, ambiente soturno, mulheres velhas vestidas de negro, cheiro de incenso, padres pregando contra a licenciosidade. E meu irmão e eu ficávamos excitados com essa tal de luxúria. Confesso que quando descobri, gostei. Gostei bastante e a pratiquei com devoção. Entre outras belas palavras achamos também a concupiscência, um encanto. Também praticada mais tarde.

Fonte: http://www.araraquara.com/opiniao/colunistas/ignacio-de-loyola-brandao/

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