A guerra do sexo

 

Por Carlos Brickmann

Duas grandes editoras de revistas, esperando o Carnaval chegar, publicaram matérias ousadas e extremamente semelhantes: informações às leitoras sobre a caça a turistas estrangeiros, uma espécie de turismo sexual, só que ao contrário. Um terceiro manual, parecidíssimo, se destina a gays brasileiros.

Todas as matérias têm algo em comum: apoio a quem quiser capturar suas presas, algumas palavras em inglês para manter a conversa até que ocorra algo mais profundo, sugestões de como livrar-se se o gringo for chato. E dois lembretes:

1. Terminado o Carnaval, o estrangeiro volta para casa, deixando seu/sua parceiro/parceira a ver aviões;

2. Não se esqueça da camisinha.

Uma das matérias ensina até, acredite o caro colega, a reconhecer um gringo: é aquele sujeito muito branco, ou vermelho como um tomate maduro, com ar de quem não tem muita idéia de onde está e com um guia turístico nas mãos.

E daí? Se houver sexo entre maiores de idade, ambos interessados no jogo, ninguém tem nada com isso. Ou, na opinião de alguns colegas, tem: houve gente indignada movendo uma batalha de twitters, acusando os autores das matérias de “sexistas”, responsabilizando-os por incentivar o turismo sexual e chegando ao extremo, este dos mais condenáveis, de divulgar seu endereço eletrônico, para que todos possam chateá-los à vontade, incomodando-os a qualquer hora. Não é por nada, mas lembrou a este colunista seus já longínquos tempos de adolescência: era lícito a qualquer homem de nossa turma namorar moças de fora, mas se uma garota da turma namorasse alguém de fora estaria dando uma demonstração explícita e inequívoca de galinhagem.

Turismo sexual é outra coisa: não é apenas viajar em busca de moças e rapazes para rápidos entreveros. Turismo sexual envolve prostituição, frequentemente envolve menores de idade, muitas vezes envolve meninas que mal deixaram a infância. Este colunista já ouviu de um turista sexual (brasileiro) a explicação de que não estava fazendo nada de excepcional: no Norte do país, o clima é quente e as moças amadurecem sexualmente mais cedo. Como disse com outras palavras o monumental Stanislaw Ponte Preta, para justificar semvergonhice sempre se dá um jeito.

Mas o tema é comunicação – e é importante evitar que o ruído torne incompreensível a mensagem principal. Turismo sexual é crime e tem de ser combatido e punido. Não deve ser confundido com o desejo de aventura de adultos que têm o direito de fazer o que querem. A confusão aumenta a dificuldade de combater o que tem de ser combatido. E o que pode acabar acontecendo é um pedido moralista de censura à imprensa.

 

Nós, não! Imagine!

O Senado, que na semana passada divulgou o obituário do senador José Sarney, desmentiu energicamente que tenha divulgado um obituário: foi, segundo informaram, “uma biografia”. Claro: e que é um obituário, senão uma biografia publicada após o falecimento do protagonista?

Mas o engraçado não é isto: enganos acontecem, fazem parte do jogo. O engraçado é que o próprio senador Sarney já escreveu sobre o obituário, chamando-o pelo nome correto. Se até a vítima do prematuro obituário já reconheceu os fatos, por que é que o Senado insiste na sua versão capenga?

 

Faz para não fazer

Primeiro, o Arquivo Nacional tentou impedir o acesso do jornalista Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo nos anos de chumbo, à documentação sobre a morte de Vladimir Herzog (Audálio, cujo comportamento no caso foi absolutamente impecável, corajoso e sem bravatas, digno e jamais prepotente, está escrevendo um livro sobre o assassínio de nosso colega). Barrado, Audálio conversou com Ricardo Kotscho, antigo assessor de imprensa do presidente Lula, que tentou por bem e, ignorado pelo governo, chamou publicamente às falas o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a quem chamou de “ex-amigo” (ver “A terceira morte de Vlado“). Só então o governo deu ordem para que a lei fosse cumprida e o Arquivo Nacional atendesse ao justo pedido do Audálio.

Para que? Para nada: os documentos sumiram (veja neste Observatórioentrevista de Audálio a Mauro Malin). Não se sabe exatamente o que aconteceu. Mas é possível pensar um pouco sobre o tema:

1. Se não havia quase nada sobre a morte de Vlado e as atividades de Audálio Dantas no sindicato, por que lhe negaram o acesso às informações?

2. Se lhe negaram o acesso para que não tivesse informações importantes, cadê elas? Quem sumiu com os papéis? Como se evaporaram os documentos?

É preciso mudar para que tudo continue como está, diz Lampedusa em O Leopardo. Mudaram as orientações para que as informações continuem desaparecidas? Que é que o Ministério da Justiça pretende fazer para recuperá-las?

Devem ser informações explosivas. Citando de memória um artigo fantástico de Alberto Dines sobre a morte de Vlado, na Folha de S.Paulo, escrito no calor da hora, ele dizia que não importava tanto discutir se o jornalista tinha sido assassinado ou se havia se suicidado. Se tinha sido assassinado, havia um crime a apurar e a punir (e que até hoje, 35 anos depois, não foi apurado nem punido); se a versão do suicídio fosse correta, seria preciso explicar o que é que tinham feito a uma pessoa cheia de vida, com planos para o futuro, para que tomasse uma decisão tão trágica.

 

A filha rebelde

E, já que falamos em Ministério da Justiça, o jornalista Políbio Braga levantou uma história de alta voltagem no Rio Grande do Sul (uma história que a imprensa nacional diária, sabe-se lá por que motivo, preferiu manter em banho-maria: a notícia ficou restrita a colunas e a grandes revistas). Luciana Genro, ex-PT, hoje PSOL, filha do governador petista gaúcho Tarso Genro, ex-ministro da Justiça, montou um cursinho gratuito pré-vestibular com ajuda financeira de cinco grandes grupos econômicos – entre eles a seguradora que faz todos os seguros do banco estatal gaúcho. A promoção das inscrições ocorreu nas instalações de uma escola pública, a Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. A administração do cursinho é feita no comitê eleitoral de Luciana Genro, na praça Otávio Rocha, 93, sala 21, Porto Alegre. Luciana é candidata a vereadora no ano que vem.

Veja narrou a história com um título monumental: “Em nome do pai”.

 

A pior é a nossa

O ranking é elaborado por uma empresa alemã bem conceituada, a Jet Airliner Crash Data Evaluation Center (Jacdec), com base na segurança dos voos nos últimos 30 anos, considerando o número de passageiros transportados. Nos primeiros lugares estão sete empresas que não registraram acidentes com perda de vidas ou aeronaves: TAP, Finnair (finlandesa), Air Berlin, Qantas (Austrália), Air New Zealand, Cathay Pacific (Hong Kong), All Nippon.

Em último, entre 60 empresas, pelo segundo ano consecutivo, uma nossa conhecida: a TAM. Desde que foi criada, em 1980, teve seis acidentes, com 336 mortes. A rádio alemã Deutsche Welle, que divulgou a lista, ouviu a TAM. Resposta: a empresa está preocupada em seguir os mais altos padrões de segurança do mundo, e em janeiro de 2010 renovou a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), sistema independente de avaliação “mais completo e aceito internacionalmente em segurança operacional”.

E ainda há quem pense que o maior problema é viajar prensado!

Uma dúvida: o relatório foi publicado pela Jacdec em janeiro, divulgado por uma rádio conceituada, a Deutsche Welle, envolve uma empresa brasileira (aliás, duas: a Gol está em antepenúltimo lugar, à frente da China Airlines e da TAM). Terá este colunista cometido a falha de passar por esta notícia sem prestar atenção nela? Ou, se não foi o caso, como se explica o silêncio da imprensa?

 

Só vale o ruim

Sim, boa notícia geralmente não é notícia (ninguém vai prestar atenção nas informações sobre o número de viagens de elevador concluídas com êxito, mas todos se interessam por um elevador que enguiçou no meio do caminho com uma moça grávida em trabalho de parto). Mas, às vezes, a opção pela má notícia é incrível: há um problema, que todos já conhecem, alguém toma providências para resolvê-lo e, em vez de entrar nesse tema, pega-se o assunto velho e retoma-se a gemedeira contra o transtorno que ainda não foi resolvido.

Um caso interessante aconteceu há pouco no Rio. Na implantação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), consórcio entre duas empresas bem conceituadas (a Thyssenkrupp alemã e a Vale, brasileira), os vizinhos do complexo reclamaram da poeira produzida pela indústria. As reclamações foram atendidas: a CSA anunciou investimentos de R$ 100 milhões num programa para eliminar totalmente a emissão de poeira na região. E assumiu o compromisso de encomendar todos os novos equipamentos necessários para o projeto neste primeiro semestre.

Qual foi a notícia divulgada num dos maiores portais de informação da internet, pertencente a um dos grandes jornais do país? Três linhas a respeito do investimento. E 47 a respeito dos problemas anteriores, que já vinham sendo fartamente noticiados – e que incluíram até o aumento dos investimentos previstos inicialmente, aumento este ocorrido seis anos atrás.

Só vale o que é ruim. Se não é ruim, não precisa nem mostrar.

 

Engolindo a notícia

Foi chato: um grande jornal publicou manchete sobre supersalários num tribunal, muito acima do teto de pagamentos do funcionalismo público, e tomou um desmentido tão bem documentado que foi obrigado a reconhecer o erro. Pior: provavelmente por descoordenação, enquanto o erro era admitido, saía um editorial com base nas informações desmentidas. A reação foi duríssima: o presidente do tribunal informou que deixava de confiar nas informações do jornal, porque, não importa quantas vezes for repetida, uma mentira continua sendo uma mentira; e alguém buscou uma clássica frase do grande jornalista americano Walter Lippman, a respeito da insistência na publicação de notícia inverídica. A frase: “Não há defesa, nem atenuação, nem desculpas quaisquer”.

Mas o importante é o que se fará de agora em diante: se houver uma supervisão mais rígida sobre matérias de acusação, o incidente terá tido consequências boas. Houve ferimentos, mas ambos os lados terão saído mais fortes. Mas, se acusações continuarem sendo feitas de maneira pouco sustentável, do incidente restará apenas o atrito entre um jornal e um tribunal e a triste conclusão de que, com certa frequência, a imprensa avança além do que permitem os fatos.

 

O repórter que sabia demais

O Flamengo lançou uma camisa comemorativa dos 30 anos de seu título mundial. Um jornal o acusou de cometer um “erro ortográfico” na inscrição da camisa. E qual será o tal erro? Escrever Tóquio como “Tokio”, quando em português é Tóquio e em inglês é Tokyo.

Erro? Analisemos: Tóquio é a transliteração, em alfabeto latino, de uma palavra escrita em japonês. E transliteração nem sempre pode ser precisa. Japão, por exemplo, é a leitura chinesa do nome japonês Nippon – ou Nihon, pode-se escolher. O antigo líder chinês Mao Tsé-tung (aquele que, para os fiéis devotos do PCdoB, nadava mais depressa, com mais de 70 anos, do que o campeão olímpico Mark Spitz) é hoje Mao Zedong. Tente pronunciar “Catar”, o nome do emirado que os americanos chamam de “Qatar”, e tenha a certeza de que vai sair bem diferente do nome que a população local dá ao país. A transliteração de nomes coreanos é tão complexa que os cidadãos mais relacionados com o exterior adotam codinomes como Dick, George ou até mesmo Bira – sim, um coreano que estudou no Rio Grande do Sul adorou o nome Ubirajara e ficou com o apelido Bira para ele.

Ou seja, Tokio, Tóquio, Tokyo, tanto faz. E provavelmente um japonês que não tenha aprendido inglês nem saberá do que se trata quando alguém falar de Tokyo perto deles. E vale o vice-versa: o primeiro superherói japonês da TV era o Nacional Kid. Para eles, Natchionaru.

 

Onde está o erro

Mas, de qualquer maneira, a camisa do Flamengo está errada. Que história é essa de título mundial? O primeiro título mundial promovido pela FIFA foi vencido pelo Corinthians, o Glorioso e Insuperável (como o chamava o Príncipe Corinthiano Ali Khan, cronista de saudosa memória). O que o Flamengo tem, como outros times, é uma taça disputada entre times europeus e americanos, que não chegam a representar o mundo.

 

Como…

De um portal opinativo, sobre a crise no Egito, Tunísia e Líbia:

** “Os três países ficam na África, com milhares de milhões de habitantes”.

Milhares de milhões é espanholismo: significa bilhões. Quantos bilhões de habitantes pensa o colunista que existem na África?

 

…é…

Título do press-release de uma imensa empresa nacional:

** “[nome da empresa] informa 69″

Onde será que é?

 

…mesmo?

De um grande portal noticioso, citando o governador paulista Geraldo Alckmin:

** “Se as chuvas não forem intensas o rio ficará na calha”

E se não chover não haverá enchentes.

 

Mundo, mundo

A Nissan, que havia lançado um anúncio em rap procurando rebaixar o concorrente Ford Focus, voltou atrás – e fez bem. No anúncio, dois vendedores da Ford bebiam champagne e comemoravam sua boa vida, paga por clientes a quem vendiam carros 1.6 por preço de 1.8. O anúncio era de mau gosto: este colunista, mesmo que a propaganda o convencesse de que não deveria comprar o carro criticado, não teria qualquer motivo para comprar o veículo que patrocinava o anúncio e que nele nada apresentava de positivo a seu respeito.

Fora isso, há uma questão de conceito: os dirigentes de qualquer empresa vivem graças ao dinheiro dos clientes. Se os clientes forem embora, adeus vida boa, adeus empregos, adeus empresa.

 

E eu com isso?

É Carnaval. Nada de pensar em coisas complicadas.

** “Suri Cruise visita loja de brinquedos com a mãe, Katie Holmes”

** “Fernanda Pontes está grávida de seu primeiro filho”

** “Justin Bieber faz gesto obsceno para fotógrafo”

** “Novos empregos podem engordar, diz pesquisa”

** “Em véspera de desfile, Bombom vai a baile”

** “Lindsay Lohan admite que não é rentável no momento”

** “Wagner Moura gostaria de ter sido bailarino”

** “Jorginho é apresentado ao Figueirense e avisa: ‘Não sou o Dunga’”

Ninguém é totalmente imperfeito.

 

O grande título

Comecemos louvando nossa burocracia (aquela que já botou gente de 90 anos numa fila do INSS, por pura maldade):

** “Aposentados vão ter que provar que estão vivos”

Bobagem: se forem governadores que se aposentaram, são vivíssimos!

Há títulos que indicam a pujança da indústria nacional, representante de uma economia que já é maior que a da Itália:

** “Polícia apreende maconha embalada e com selo de exportação em São Paulo”

Certamente há países produtores que competem com o Brasil. Mas com esta qualidade e requinte?

E o grande título da semana:

** “Cláudia Abreu confirma gravidez de seu quarto filho”

Que fofura! Tão jovem e já grávido!

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=632CIR001

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