Economia, confete e serpentina

 

Por Rolf Kuntz

Consumidores trocam marcas, procuram outros supermercados e fazem compras picadas para enfrentar a alta de preços, informaram no domingo de Carnaval (6/3) oEstado de S. Paulo e o Globo. As matérias mais uma vez mostraram consumidores agindo racionalmente. Reportagens como essas tornaram-se há anos um item quase obrigatório em tempos de surto inflacionário.

“Surto” pode parecer uma palavra exagerada quando se compara a inflação de hoje com a dos anos 1980 e do início dos 90. Mas uma taxa de 6% ao ano, e não ao mês, como naqueles tempos, ainda é uma séria ameaça ao bem-estar das famílias e ao bom funcionamento da economia. Por isso grandes jornais deram destaque, nas edições de sábado (5/3), às informações sobre a evolução dos preços em fevereiro.

No dia anterior, tinham sido divulgados o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Índice Geral de Preços calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os dois haviam subido pouco menos que em janeiro e continuavam mostrando uma inflação acelerada. Além disso, os índices de preços ao produtor apurados pela FGV apontavam a possibilidade de novas pressões sobre o varejo nos próximos meses.

Um pouco de trabalho

Os jornais, de modo geral, forneceram a informação essencial e enriqueceram a cobertura com alguma análise de especialistas. Mas fizeram menos do que poderiam. Na mesma semana, a FAO, o órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, havia divulgado uma avaliação pessimista do quadro internacional. Os preços agrícolas haviam atingido em fevereiro o nível mais alto desde 1990. Isso confirma boas perspectivas de exportação para os grandes países produtores, como o Brasil, mas aponta, ao mesmo tempo, uma forte elevação de custos para as famílias de todo o mundo.

Um dia depois dessa notícia, a diretora do Departamento de Relações Externas do Fundo Monetário Internacional (FMI), Caroline Atkinson, comentou os dados e falou em graves motivos de preocupação com as condições de abastecimento nos países mais pobres e mais dependentes da importação de alimentos. São, na maior parte, países africanos e do sul da Ásia.

Não há, no Brasil, problemas de oferta de alimentos e, além disso, a maior parte das famílias brasileiras vive muito melhor que as famílias daqueles países. Mas ninguém está livre das pressões originárias do mercado internacional de commodities (especialmente alimentos e petróleo) e mesmo na Europa já se fala em aumento de juros para conter a nova onda de inflação.

Os jornais pouco fizeram para juntar essas peças de informação externa e interna e oferecer ao leitor um quadro mais amplo e mais articulado. Não seria difícil. Redatores e editores precisariam simplesmente lembrar o material publicado durante a semana e combiná-las para montar uma história mais completa.

Foco de preocupação

A primeira semana de março foi rica de noticiário macroeconômico. Na segunda-feira, último dia de fevereiro, os ministros da Fazenda e do Planejamento detalharam os cortes orçamentários prometidos em janeiro. Na quarta-feira (2/3) o Banco Central (BC) elevou os juros pela segunda vez neste ano, reagindo à ameaça da inflação. Na quinta (3) o IBGE divulgou as contas nacionais do quarto trimestre do ano e, portanto, completou o quadro do crescimento econômico em 2010. Na mesma quinta-feira saíram os números da inflação de fevereiro.

Os grandes jornais enfrentaram bem a maior parte da cobertura e conseguiram, no caso dos cortes, ir um pouco além da informação oficial. O melhor fecho dessa cobertura apareceu no Valor de sexta-feira (4/3). Apesar dos anunciados cortes de R$ 50 bilhões, o governo poderá gastar em 2011 R$ 90 bilhões a mais do que ano passado. O toque a mais dessa matéria foi simplesmente a comparação do orçamento revisto deste ano com a despesa efetiva (e não apenas programada) de 2010.

Nem todos exploraram como poderiam os vínculos entre inflação, aumento de juros, atração de capitais e câmbio. O Estadão foi um pouco além dos outros, nesse caminho, e chamou a atenção, no sábado (5), para a possibilidade de um novo pacote, em breve, para conter a valorização do real. De outra perspectiva, o Globoabordou a hipótese de uma alteração abrupta no câmbio, com uma inversão da trajetória do dólar.

Em outras palavras: também haverá problemas se a valorização do real for interrompida e a moeda americana voltar a subir. Hoje os empresários se queixam do dólar muito barato, porque o câmbio dificulta as exportações e facilita as importações. Muitos, no entanto, estão aproveitando o momento para tomar financiamentos no exterior. Esses poderão enfrentar dificuldades se o quadro cambial se inverter – e esse é o tema da matéria do Globo. No governo, segundo a reportagem, há gente preocupada com esse risco.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=632IMQ002

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