BREVES LINHAS PARA REFLETIR: “A GUERRA DO TRÁFICO SOB A ÓTICA DO MORADOR DA FAVELA DO RIO DE JANEIRO”

Todos acompanhamos, com perplexidade, as notícias que se divulgam pelos diversos meios de comunicação, especialmente pela televisão, sobre os graves acontecimentos em algumas das  favelas do Rio de Janeiro.

É muito fácil ver e tentar imaginar as coisas do lado de cá da telinha ou na frente do jornal ou da revista, mas você já parou para pensar qual é o sentimento de quem vive no meio daquilo tudo?

Imagine você pela manhã, indo acordar seu filho e ao chegar perto de sua cama encontrá-lo já acordado, tremendo sob o cobertor ou mesmo debaixo da cama, dizendo-lhe que não dormiu a noite toda por conta do barulho dos tiros ouvidos na “guerra” que ocorre na quadra ou na casa vizinha.

Tente agora se ver, saindo de casa e ao abrir a porta, se deparando com homens armados, ordenando que você saia de lá ou que permita o uso da sua moradia como “esconderijo” para os bandidos da quadrilha da qual eles fazem: se disser sim será conivente com criminosos, se disser não, provavelmente morrerá…

Ainda assim, com sorte, lhe permitem que você leve seu filho para a escola, afinal, “almas bondosas” que são, também entendem que educação é direito constitucional assegurado universalmente.

Sabendo que ao voltar haverá desconhecidos no seu lar, você segue, se agachando aqui e ali, correndo e se escondendo de um carro a outro, tentando não ser alvo de uma bala perdida você caminha na direção do colégio…

E com sorte você chega à escola e lá se depara com um aviso no portão, noticiando que, por falta de segurança, até segunda ordem, as aulas estão suspensas…

De quem é a tal ordem?

O que fazer?

A quem recorrer?

A ninguém…o Estado não está ali para cumprir o seu papel, para zelar para que os seus direitos mais fundamentais sejam atendidos, ainda que minimamente…

Resta-lhe então, fazer o caminho inverso ou senão, descer para o “asfalto” (é assim que tratam lá as zonas mais urbanizadas) e ir para lugar nenhum, afinal de contas não foi por seu desejo que o morador da favela preferiu moradias precárias, com quase nenhuma infraestrutura, quase em estado de abandono – para lá você foi por ser a alternativa que lhe restou…

Mas você resolve voltar para o seu “barraco”…sobe o morro desviando dos tiros e chega no lugar até onde a pouco morava com sua família e onde agora habitam, contra a sua vontade, homens armados, envolvidos com o crime, poderosos, que detém sobre você e seus entes queridos o poder de decidir se você deve viver ou morrer….

O dia passa….

Amanhã tudo não vai ser diferente….

 

Autor: Humberto Gouvêa Figueiredo

 

 

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2 comentários

  1. Mauro · março 10, 2011

    E por onde começar para quebrar esse círculo vicioso?
    Essa pergunta deveria martelar o tempo todo na cabeça dos governantes. Mas não acontece, com certeza.
    As populações marginais são um problema global, acentuado por essa vida “moderna”. E a violência adquire os contornos de cada localidade. E onde é o rabo desse negócio? Onde começa a desgraça? É o político que corrompe ou o traficante que coopta? É uma questão de mercado? Lei da oferta e procura das drogas? Quem vende, quem compra, quem tira proveito? Sobra pros jovens que não tem acesso à educação, vivem à margem do Estado.
    Para mim, a EDUCAÇÃO é uma das opções mais eficazes para quebrar esse círculo. Formar cidadãos e dar oportunidades dele vencer sozinho. Muito poucos farão isso. A tentação da vida fácil, ainda que breve, do “status” na comunidade, dos carros, motos, dinheiro, etc. é muito grande.É só bandear para o lado dos traficantes. É, a coisa é muito mais complexa.
    Mas acredito e conheço exemplos que a educação opera milagres, rompe barreiras. É isso.

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