VITÓRIA DA CAFAJESTAGEM

Soterrado pelo himalaia de pistas, evidências e provas erigido pela Polícia Federal ao longo da Operação Anaconda, concebida para desmontar uma quadrilha cinco-estrelas especializada em manipular processos judiciais e comercializar sentenças expedidas por bandidos togados, João Carlos da Rocha Mattos enfim se sentou num banco dos réus. Há dias, foi condenado a três anos e meio de cadeia. Também perdeu o emprego. Já transformado em ex-juiz federal, deverá passar numa cela o Natal, o réveillon e, quem sabe, um punhado de meses.

Além de Rocha Mattos, outros nove dos 11 acusados sofreram algum tipo de condenação. Um deles foi absolvido. Na pátria da impunidade, seja sempre bem-vinda (e até saudada, quando possível, com fogos de artifício ou desfiles de escolares com bandeirolas) qualquer espécie de sanção imposta a corruptos de terno e gravata, sobretudo os craques na arte de fazer amigos e influenciar pessoas. Mas o desfecho da primeira etapa da operação (se é que haverá outros capítulos) configurou um fiasco equivalente ao tamanho da cobra invocada para batizá-la. A Anaconda virou piada.

Muitos delinqüentes simplesmente se livraram do comparecimento a tribunais. Apesar das denúncias cabeludíssimas, caíram fora ainda na fase do inquérito. Outros foram contemplados com sentenças anedóticas. O juiz federal Cassem Mazloum, por exemplo, também perdeu o cargo. Mas os antigos parceiros de corporação resolveram premiá-lo: trocaram a sentença de prisão pela sempre difusa “prática de serviços comunitários” (Como Cassem, que formou com o mano e também magistrado Ali Mazloum a dupla apelidada de “Irmãos Metralha” nos fóruns de São Paulo, pode aparecer na vizinhança oferecendo ajuda, moradores das quadras próximas vão tratando de só deixar alguns trocados na carteira e esconder o que há de valioso.)

Muito barulho por nada, de novo. Otimistas uterinos podem consolar-se com o fato de que, afinal, aplicou-se a um juiz federal a pena de reclusão, reservada ao andar de baixo do Brasil. É que o próprio Rocha Mattos tornou virtualmente impossível aos julgadores simplesmente devolvê-lo ao recesso do lar. Há semanas, ele ameaçou abrir seu baú de horrores, atulhado de nomes supostamente respeitáveis, caso o castigo lhe parecesse exagerado. Três anos e pouco, pelo visto, estão de bom tamanho.

Aos 56 anos, bem de saúde e sempre atento a cuidados físicos, tem tudo para viver bastante, e bem de saúde. A cadeia se afigura menos sombria para quem tem a esperá-lo, em contas bancárias intocadas pela Justiça, milhões de dólares acumulados. O tempo, para condenados dessa linhagem, parece passar com maior rapidez. Logo Rocha Mattos estará solto. Livre, leve e rico, poderá saborear a pertinência da frase, popularizada em tantos filmes, que certamente vem repetindo aos amigos que o visitam: “Um dia vamos rir muito disso tudo”.

Ele certamente vai: sorrisos e gargalhadas haverão de distender com freqüência o rosto emoldurado pela cabeleira de beque argentino aposentado. Rocha Mattos confere carinhos especiais ao que considera seu maior trunfo estético. Ao saber que o barbeiro da cadeia o aguardava, mostrou-se irredutível: àqueles fios só teria acesso seu cabelereiro particular. Ganhou também essa parada. E assim preservou o essencial: o visual e o dinheiro obtido com a roubalheira.

Não é pouca coisa. Nos anos 80, depois de audaciosas intervenções em processos que envolviam o governo paulista, Rocha Mattos tornou-se conhecido como “o juiz do Quércia”. Além de Orestes Quércia, também lhe devem sentenças favoráveis outros ex-governadores, como Luiz Antônio Fleury ou Paulo Maluf, e grandes empresários que costumam demonstrar em espécie o bonito sentimento da gratidão.

O Brasil ficou um pouco mais cafajeste.

anunes@nominimo.ibest.com.br

 

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1 comentário

  1. Regulle · março 11, 2011

    Pois é.
    Não sei se esperava alguma coisa muito diferente disso…
    Mas como mto bem dito no texto, a condenação do Ronie Von de toga já é alguma coisa…
    Abraços x3

    Regulle

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