Crônicas do araraquarense Ignácio de Loyola Brandão

Caro Jorge Affonso

Quando Georgia me ligou, e espero estar acertando a grafia de seu nome, e me convidou para o jantar do dia 7, respondi sim, sem pestanejar. Faz anos que não nos vemos, anos que não nos falamos, mas eventualmente escrevo a teu respeito aqui. Outro dia foi o encanto que os seus olhos provocaram sobre uma geração de mulheres. Outra o fascínio que sua casa e aquele jardim ao lado, um oásis, na aridez da rua quatro exercem sobre mim. Sempre me relacionei muito com teu irmão Roberto, tínhamos uma paixão em comum: o cinema, que ele me alimentou. Mas Roberto se foi tão cedo e há tanto tempo. Uma vez, quando você presidiu a Ferroviária, estivemos juntos muitas vezes. Talvez o fato de ambos sermos secos, fechados, ou quem sabe tímidos ou arredios à vida social não nos levou a uma aproximação maior. Pena. No fundo sempre te admirei como empresário, homem arrojado, sempre em evolução, sempre atualizado.

Você é daquelas pessoas ligadas a Araraquara, ao desenvolvimento da cidade, é um empreendedor que poderia ter crescido e ido embora, mas ficou. Permaneceu, e essa permanência foi essencial, criou tradição. Desde criança eu tinha essa marca GM ligada a minha vida junto ao Carmo, um referencial. Quantas empresas de Araraquara podem exibir seus 85 anos, ou quase um século? Se a concessionária nasceu em 1926, pelas minhas contas, a diferença entre ela e a Lupo é de cinco anos. Dois grandes. A Lupo passou por várias gerações, enquanto você, se não erro, é a segunda geração. Certo? Seu pai Graciano e depois você? Não é algo para se orgulhar?

Pelas minha contas, você está com 83 anos, tendo nascido em 1928. Portanto, quando a concessionária foi fundada, você tinha dois anos. Passou a infância correndo pela oficina atrás do Graciano? Coisas assim passam pela minha cabeça. Gosto da história das pessoas e dos homens, da ligação entre pioneiros e suas criações. Araraquara espera a recuperação da história de sua empresa, Jorge. Não se esqueça, faça esse presente à cidade. Estou escrevendo todas estas linhas para tentar chegar até você e dizer: não, dia 7 não poderei estar no jantar. Por um problema de afobação. Quando Georgia me ligou, ouvi dia 8, logo disse sim, até pensei na roupa que deveria usar. Ao olhar o convite hoje, dia 1 de abril, vi que será no dia 7. Na minha agenda, tenho anotado na manhã do dia 8, um encontro às 8 da manhã, com editores e livreiros, onde serei o principal personagem, conversando sobre meus livros, principalmente meu livro mais recente, que estará saindo nesse dia. chama-se “O Menino que perguntava”, uma continuação do meu “O Menino que Vendia Palavras”. Os dois se passam em Araraquara. Na véspera, tenho uma reunião com a editora Objetiva para traçar o esquema do encontro. Desde ontem, dia 31 de março, (escrevo na sexta-feira) venho tentando mudar a data. Impossível, livreiros virão de vários cantos do Brasil. Compungido deixarei meu lugar vazio. Mas se você puder, ou quiser, eu gostaria que pedisse a alguém que lesse este texto durante o jantar. É curto, afetivo, não vai aborrecer. Um texto que lembrará a admiração de um araraquarense pelo outro. De um criador para outro, ainda que em campos diferentes. Boa sorte, um grande abraço, Jorge Affonso.

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A rua das nove mulheres

Avenida XV de Novembro sempre foi um lugar encantado para mim. Criança, por ela eu descia para ir ao riacho que corria lá em baixo, por uns chamado de córrego da servidão, porque nele desaguavam os esgotos, por outros conhecido como rio das bostas. No rio brincávamos, fazíamos represa, nadávamos, víamos mulheres lavando roupas, nos tornávamos piratas. Subindo, tinha o jardim público, ou da Independência, onde os casais namoravam à noite, enquanto nós, crianças, contemplávamos os “amassos”, sonhando com eles. No jardim, na época de exames do ginásio, passávamos a noite estudando, ou pretendendo estudar, era mais conversa e cerveja, misturado com Pervitin, que qualquer farmácia vendia sem receita. Em frente ao jardim, na Rua Quatro, morava Marilia Caldas, com sua pele branca, seus lábios vermelhos, seus olhos negros, a coisa mais linda do mundo.

Passada a sorveteria da esquina, hoje chamada Bijou, vinha uma série de referenciais. Quase frente a frente moravam dois ícones. De um lado a Marcia Amorim, morena, do outro a Lais Pinheiro, loira e com olhos verdes perturbadores. Marcia morreu há muitos anos, parece-me que jovem ainda. Laís está aí, ainda bonita, os olhos bem acesos, casada com Arnaldo Vendramini. Na XV morou a Maria Ignez de Souza, morena, que o Wallace levou para o TECA e para o filme Aurora de Uma Cidade, jamais terminado. Maria Ignez era um deslumbramento, uma arrasa quarteirão, misto de Luisa Brunet com Juliana Paes da época. Rosto e corpo de modelo, preferida para ser clicada por fotógrafos do Foto Cine Clube, como Lucilio Correa Leite e Rivas Autulo, seus closes estavam em cada exposição do grupo no Teatro Municipal. Poderia ter feito carreira no cinema, como Maria Dilnah, outra araraquarense que fez dezenas de filmes.

Vinha então Graziela Lalaina, que perdi de vista. Morena, um jeito travesso de andar, morava numa casa modernista, que ainda está ali. Nunca mais soube dela. Mais umas quadras, eu, adolescente flutuava num espaço mágico. A poucos metros uma da outra, viviam Nilceia Tonello e Maria Helena Belda. Esta, imbatível beldade, por todos cobiçada, enfim conquistada pelo Quinho Somenzari, que me deixava morto de inveja (também) por outra coisa, era um dos melhores goleiros de futebol de salão. Nilceia, soberba, morava na Rua Dez, vizinha ao legendário Chico Opice, o homem que conhecia todo mundo, circulava com um sorriso e uma piada, pioneiro na venda de persianas . Nilceia era a mulher mais sensual que havia, passava espalhando uma atmosfera de provocação. Eu a esperava na saída do Progresso e a seguia, então surgia seu namorado, depois um político famoso na história da cidade, que a levava para casa ao meio-dia. Um dia, por causa dela, um frisson percorreu trechos da cidade. Que tarde aquela!

Nilceia e a tarde espantosa. A palavra frisson é antiga, mas vale aqui. Rolou um clima porque frequentadores do Tênis contaram que ela, ao sair da piscina certa tarde, teve as alças do maiô arrebentadas e os seios ficaram à mostra. Que imagem a daquela mulher molhada, batida de sol! Coisa de cinema, para ficar na história. Como se falou disso, pairou no ar, foi contado de boca em boca. Quanto sensualismo imaginado. Onde estará Nilceia?

Entre a Três e a Quatro viveu Adriana Medina, suave criatura, também a se incluir aqui. E confesso que, em frente da Adriana, onde morava o Wallace Leal, viveu uma jovem morena que, numa segunda-feira dos anos 50, saiu do cinema, olhou para mim, sorriu, me convidou a acompanhá-la, fomos conversando trivialidades rua abaixo, depois por horas ficamos no portão de madeira da casa do Wallace, docemente empenhados em amplas liberdades. Ela não me disse o nome. Por semanas repetimos o encontro da segunda-feira, até que ela desapareceu. Quem era, para onde foi?

Na XV eu poderia citar Ruth Cardoso, cuja mãe, Mariquita, construiu uma casa junto ao riacho que foi canalizado e tragado pela Via Expressa. Ruth vinha em férias, passava alguns dias, nada mais. Esperem! Na XV morou também, na esquina da Seis, aquela que hoje é uma das maiores lingüistas do Brasil, professora de alta linhagem, Maria Helena Moura Neves, a quem Araraquara (e todos nós, o Brasil inteiro) deve muito em matéria de português. Lembrando essas mulheres, fiquei pensando que se no Rio Grande do Sul existiu A Casa das Sete Mulheres, em Araraquara houve, para mim, A Rua das Nove Mulheres. Por que não mudar o nome da XV, afinal a proclamação da República já tem homenagens demais? Não incluí Marilia Caldas, porque ela morava na Quatro, não na XV. E a morena da casa do Wallace nunca soube se foi sonho, imaginação, fantasia, desejo que tal acontecesse, eu era muito louco. Sim, cada um terá as suas lembranças afetivas de uma rua e vai querer reivindicar a mudança de nomes. E daí? Por que não? Teríamos nomes poéticos certamente, curiosos, divertidos, gostosos, ligados à gente da terra.

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Devoção x luxúria

No carnaval, éramos proibidos de sair de casa, porque o demônio estava à solta, podia corromper nossas almas infantis. Seriamos condenados ao inferno, as chamas nos devorariam por toda a eternidade. Anos 40, claro. A luxúria estava à solta. “O que é luxúria?” perguntávamos entre nós, crianças. A licenciosidade seduzia. O que é licenciosidade? O pecado estava pronto a nos consumir. Como seria bom ser tragado por ele. Ao caminhar para a igreja Matriz, meus pais evitavam que olhássemos, meu irmão e eu, para o Nosso Clube, cujos bailes eram na avenida XV de novembro, ao lado da padaria do Pazetto, hoje Flório. O Nosso Clube, animadíssimo, era o território dos pretos (não, não vou usar afrodescendente, meu termo não é pejorativo), onde estavam os melhores dançarinos da cidade. Luiz e eu ainda conseguíamos virar o rosto e vislumbrar mulatas esplêndidas que vinham descansar no jardim público. Imagens que me ficaram para sempre. Cada vez que atravesso o jardim , lembro-me delas, eram luxúria, perdição, paraíso, anjos, fadas sensualíssimas. Várias são avós hoje. Terão noção de como foram desejadas um dia?

Pequenos, tínhamos de ir à igreja, com o Santíssimo exposto permanentemente, para expiar os pecados do mundo. A palavra expiar me confundia. Espiar não é olhar? Então, íamos à igreja para olhar os pecados do mundo? Mas os pecados não estavam nos clubes, com aquelas fantasias orientais, as mulheres com as pernas de fora? Que confusão em nossas cabecinhas inocentes. Os pecados não estavam no corso? Porque havia corso de carros na Rua Três com mulheres decotadas. Algumas de seios opulentos. Bem, um dia meu pai explicou que havia uma diferença entre espiar, com S, e expiar, com X. O velho Totó era bom com palavras. Percebemos que a inocência era uma chatice, significava o mundo fechado. Na igreja não havia pecados e luxúria, havia orações, ambiente soturno, mulheres velhas vestidas de negro, cheiro de incenso, padres pregando contra a licenciosidade. E meu irmão e eu ficávamos excitados com essa tal de luxúria. Confesso que quando descobri, gostei. Gostei bastante e a pratiquei com devoção. Entre outras belas palavras achamos também a concupiscência, um encanto. Também praticada mais tarde.

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Henriqueta e o circuito doce

 

As pessoas se lembram daqueles doces como se fossem joias. Marcia Gullo, minha mulher, sente a boca encher de água ao pensar nos camafeus de nozes, inigualáveis. Eda Lombardi ainda tem presente as tamaras e as ameixas, recheadas por um creme de ovos e tantos outros. Os célebres “vidrados”. Cada um tem a mais doce memória de Henriqueta Salles que se foi há pouco, aos 96 anos. Daquelas mulheres, conhecidas como boleiras, de grande tradição, Henriqueta foi a penúltima. Antes dela havia dona Viga. E digo que agora, ao menos no meu circulo, só resta a Terezinha Pirolla.

Henriqueta e Viga pertenceram a uma época áurea, praticamente monopolizaram os doces das festas e casamentos. Tinham estilo, marca pessoal, coisas que estão desaparecendo na massificação. Como esquecer o bolo de casamento de Henriqueta, de nozes e glacê de manteiga? Tudo batido a mão, porque havia o ponto, sutil, inefável, exato. Gerações e gerações se casaram com aquele bolo no centro da mesa. Sem falar nas barquetes de camarão, lendárias e jamais superadas. Porque havia também salgados, ah, se havia.

A história dela merece um documentário. Ela e a Tina Ferrari (mulher do Domingos, mãe do Mingo e do Zeca) eram irmãs. Henriqueta bordava e Tina fazia doces. Os bordados com vidrilhos de Henriqueta fascinavam. Quando conheci Tina ela oferecia uma feijoada inesquecível. Pois bem, um dia elas trocaram. Tina passou a bordar e Henriqueta a fazer doces. Primeiro na Rua Quatro, vizinha ao Grupo Pedro José Neto. Depois, desceu para a Rua Cinco, na esquina com a Avenida Espanha, vizinha a Funerária Almeida. Márcia Gullo ainda se lembra, com olhos deslumbrados, de chegar a casa de Henriqueta, nas vésperas de festas, e dar com extensas mesas que ocupavam os corredores, repletas de doces. Se o cinema nos deu a Fantástica Fábrica de Chocolates, em Araraquara existiu a Fantástica Fábrica de Doces da Henriqueta. Um cheiro adocicado permeava a atmosfera naquelas tardes.

Outros se lembram que na festa de Corpus Christi a porta de Henriqueta se abria e os “decoradores”, que transformavam a rua em um tapete de flores, recebiam lanches, sucos, doces e tudo o mais. Aliás, pelo que se sabe, as portas da casa de Henriqueta nunca se fechavam. Ternos tempos. Pertíssimo, quase vizinha, estava dona Viga, que foi outro portento. Assim, por décadas houve um trecho da cidade, Rua Cinco, limites da Feijó, Espanha e até a Duque de Caxias, que poderíamos chamar o Circuito Doce. Nossa Câmara de vereadores tem homenageado muita gente que fez a história da cidade. Porque não colocar uma placa, Circuito Doce, naquele local, honrando Henriqueta e Viga? Com uma festa à qual seriam convidadas as atuais boleiras e doceiras da cidade, as mesas estendidas à sombras dos oitis da rua.

Madalena, que trabalhou anos com Henriqueta e herdou sua mão, ainda está viva e ativa. Madalena formou as filhas na faculdade fazendo doces, o que não é pouco. Havia ainda o Tiburcio, com boas mãos para o que desse e viesse. Henriqueta mudou-se para São Paulo em 1991 e ainda continuou a fazer delicias. Entre suas clientes estavam Maria Amélia Buarque de Holanda, Memélia, (mulher do Sérgio, mãe do Chico), que faleceu recentemente. E a araraquarense Ruth Cardoso, um dado que, infelizmente, eu soube tarde demais e não inclui na biografia que escrevi.

Hoje, Rosário, filha da Henriqueta está a caça dos cadernos de receitas da mãe. Ela conseguiu recuperar os fichários, o que não é pouco. A Editora Moderna, que tem no quadro editorial uma araraquarense, a Maristela Petrilli, está sendo consultada e talvez ali se possa resgatar essa memória, que pertence à gastronomia brasileira.

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Acabou a luta pelo Coral?

 

Acabo de receber notícia desoladora. O Cine Coral vai mesmo desaparecer. Segundo o que me informaram, ele será transformado em salas comerciais. É o poder do dinheiro, como dizia Caetano Veloso, que produz belas coisas, mas também aniquila. Não houve interesse da Secretaria deCultura de aderir ao movimento de preservação, não se encontrou nessa cidade rica um patrocinador destinado a fazer algo pela cultura, estruturar um projeto. Assim vamos compondo uma longa lista de destruições:

A matriz
O teatro
O cine Paratodos (Capri)
O cine Odeon (Veneza)
A casa histórica (arquitetonicamente falando) do Chiquinho Vaz.
A da família Paixão
O convento dos redentoristas.
O largo da Santa Cruz,
desfigurado.
Entre outras.

O que há? Insensibilidade? Desprezo? Uma noção torta do significado de modernidade e desenvolvimento? Não entendo. Gostaria que me explicassem. E cada vez mais me dou conta do gesto generoso, imenso, enorme, gigantesco, de Eleieth Saffioti, que se foi há tão pouco tempo. Quem chegará um dia ‘a altura dela que simplesmente desprezou os milhões que lhe ofereciam pela sua chácara, preferindo doá-la ao patrimônio cultural araraquarense. Grandez e nobreza. As pessoas se tornam liliputianas diante de Eleieth. Aos que não sabem o que é Liliput, leiam “Viagens de Gulliver”, de Swift. Ou não sabendo ler ou, tendo preguiça, vejam o filme.

 

Fonte: http://www.araraquara.com/opiniao/colunistas/ignacio-de-loyola-brandao/

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