A volta de Ruth Cardoso a Araraquara

Penso que umas 600 pessoas passaram pelo Teatro Municipal na segunda-feira, dia 18. Ao menos, 300 passaram pela mesa para que eu autografasse a biografia de Ruth. A todo instante vinham me dizer que a fila estava na calçada, lá fora. E a fila não diminuía. Muita gente pegou seu copinho, ficou a conversar. Outros sentaram-se nos sofás colocados em um canto do hall lotado. À medida que viam a fila diminuindo corriam e pegavam o lugar, a fila crescia. Não sei o que ocorreu fora de minha mesa, tudo o que percebia eram rostos, abraços, nomes, via amigos de juventude de Ruth, via jovens e via velhos, via gente que não vejo há décadas, revi meu primo Tóni, companheiro de infância no largo do São José. Alguns fiz furar a fila, como o Sidney Rodrigues e o Renato Correa Rocha que jamais faltou a um só autógrafo meu. Fernando Henrique Cardoso ia para um lado, arrastava um bando, voltava, o bando voltava, sentava-se ao meu lado, assinava, levantava, a “muvuca” sempre em torno dele, que repetia: “essa festa é da Ruth”. Pareceu-me feliz. Eu disse que, naquela noite, a Ruth que se foi da cidade em 1945 estava voltando e a cidade estava ali para recebê-la.

Foi um acontecimento que funcionou sobre trilhos (claro, afinal sou filho de ferroviário). Mas poucos sabem quantos encontros, telefonemas, e-mails cheios de ansiedade e dúvidas foram trocados no ultimo mês. Cada detalhe sendo acertado, cada momento ajustado, cada idéia discutida. Contatos com Xico Graziano, assessor de FHC, para acertar a vinda, coisa nada fácil, com a agenda do homem. Zi Barbieri, nossa primeira dama, o Zaccarelli, secretário de governo, a Euzania, lançavam perguntas para lá e para cá, como fazer isto, como podemos fazer aquilo? Banners, cartazes, convites, coquetel, livraria, projeção de fotos de Ruth e de Araraquara do tempo dela. Poucos notaram que FHC evitou olhar as fotos de Ruth que se repetiam num carrossel. Ele não conseguia, era forte demais. Na sua fala, Fernando Henrique contou da emoção que sentiu ao voltar, ao rever lugares onde se encontrava com ela, e o que Araraquara significou na vida dos dois. O que permeou a festa foi a emoção de reencontros, de lembranças, de memórias, Inayá, BIluca, Zé Baiano, Renato, pedaços de vida que se cruzaram.

A livraria Nobel entendeu a altura do evento, o significado daquela festa — histórica, sem dúvida — e montou, criou uma livraria dentro do teatro e produziu sacolas especiais para o evento. Por trás de tudo flutuava o espirito organizador de Ruth, as suas exigências, a sua determinação, alegria, seu jeito araraquarense de ser. Lá onde está, ela deve ter gostado da festa, da Camerata. Na hora do tango teria dançado com seus pares habituais, Brasilino, Zé Baiano, Nelson Gullo, Mario Barra e tantos outros. Renato me pediu um autógrafo, para Maria Ernestina de Carvalho, ligadíssima ao grupo, que infelizmente não entrevistei, mas que fez parte daquelas vidas, daqueles anos de faculdade, de inicio de carreira, de amizade.

Noites de autógrafos são complicadas para o autor. Confinado à mesa, vejo o livro, o rosto, o minuto de conversa, o abraço, a velocidade, e depois passo a noite insone, acordando e pensando, tratei bem, dei atenção a esta pessoa, àquela, aquele outro? Certo momento senti um cheiro familiar, tinham colocado um prato de coxinhas de Bueno, sorri, procurei um guardanapo, comi uma, difícil autografar e comer coxinhas sem engordurar os livros, tive de parar. Pensei: como depois. Depois? Depois as coxinhas se acabaram. À meia noite, a abóbora me esperava na porta, parti como a Cinderela, fui ao Vitório (que fica na Dom Pedro, a rua onde Ruth nasceu), onde Marcelo Barbieri e Zi receberam Fernando Henrique Cardoso, Xico Graziano e um grupo fechado para um jantar preparado pelo Gustavo. Quando cheguei, o presidente tinha ido, era tarde. Fizeram o último prato para mim e Márcia, para ela um Tournedo, para mim um abadejo que se desmanchava. Pena que não trouxe o cardápio impresso, lembrança desse jantar.

As ultimas figuras que me abraçaram foram Paulo e Sonia, de Bueno de Andrada. Ela sorridente, elegante. Resplandecente, não cabia em si de contente. Eu disse em minha fala que Ruth, sempre novidadeira e cozinheira, teria gostado das coxinhas. Quando a prefeitura perguntou à Sonia quanto custariam as milhares de coxinhas douradas distribuídas na festa, ela, reconhecida, grata, generosa, sorriu e respondeu que nessa noite de Ruth Cardoso, de Araraquara, do ex-presidente da República, e minha, ela queria apenas que saboreassem, se encantassem, fossem felizes.

Fonte: http://www.araraquara.com/opiniao/colunistas/ignacio-de-loyola-brandao/

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