A morena da Estação

Por Ignácio de Loyola Brandão

Acaba de ser lançado pela Editora Moderna um livro que me é muito querido, dedicado ao meu pai, Totó, aos meus tios José, Geraldo e Inácia, ao meu irmão Luis e à minha cunhada Elsa, que faleceu há um mês. Todos ferroviários. Luis e Elsa se conheceram na contabilidade da EFA e viveram a estrada em seu esplendor e decadência. Aliás, dediquei também a Liliana Petrili Segnini que fez um estudo acurado sobre a vida nas ferrovias, regimes duros, buscando a perfeição. Este meu 36º livro fala de trens, estações, ferroviários, trilhos, locomotivas, plataformas, túneis, primeira classe, segunda, pullman, trem azul, trem prateado, horários irretocáveis, lendas, mitos, costumes, a vida nas cidades ligadas pela estrada de ferro. Neste “A Morena da Estação” está um momento da vida araraquarense, quando as ferrovias estavam em seu esplendor. Crônicas bem-humoradas, trágicas, divertidas. Uma araraquarense, Maristela Petrili, com uma equipe apurada, montou a belíssima edição, que dá gosto ver e folhear. Um livro simples e chique, uma das mais belas capas que tive nos últimos anos. Sei que se prepara um lançamento aqui, quando o Museu da Ferrovia for aberto.

As novas gerações no Brasil nunca viajaram de trem, porque os trens desapareceram há anos. Digo os trens de passageiros, porque os de carga ainda cruzam o Brasil. Tudo bem que hoje se viaja de ônibus, de carro, de avião. O avião é superrápido, mas tem inconvenientes como a ausência de uma paisagem, a não ser diferentes tipos de nuvens, nada mais. E há ainda as longas esperas em aeroportos — lugares chatos — e uma viagem passando fome, porque só dão sanduichinhos frios e sem graça ou barrinhas de cereais. Há no Brasil o costume bem frequente de cancelarem voos e te deixarem na mão.

Quanto aos ônibus, em uma viagem rápida ainda é suportável. Uma lei obriga os ônibus a andarem devagar, mais ou menos 90 km/h, de maneira que qualquer trecho é vencido em três, quatro horas. Viagens longas tornam-se tormentos. Você não pode esticar as pernas, porque se todo mundo resolver levantar e andar ao mesmo tempo, o corredor congestiona, ninguém se move. O banheiro é lá atrás e para se servir dele tem de ser equilibrista, a rabeira chacoalha para lá e para cá, e se você estiver de pé, faz o xixi para fora do vaso.

Viagens de carro são viagens de carro. Conforto, mas você paga gasolina, paga pedágio e para nos mesmos postos dos ônibus, umas tranqueiras. Os radares fiscalizam e se você sair um pouco de norma, paga caro.

Bem, faça uns descontos, porque quem escreve é um homem apaixonado que passou parte de sua vida dentro dos trens. Quase nasci num trem. Não nasci, mas teria adorado. Minha família toda era de ferroviários. Poucos viajaram como eu em todos os tipos de trens e puxados pelas mais diferentes locomotivas. No Brasil e no mundo. Ferrovias e trens sempre foram um mundo rico, fascinante, com luxo ou com aventuras. Os trens estão na literatura e no cinema. Portanto, vocês vão ler um hino de amor aos trens que, talvez um dia, voltem a circular com passageiros por este Brasil. Este livro, escrito com ternura, é memória mas é também atualidade, os dias de hoje. Sempre se fala que os trens voltarão. Se voltarem, vocês já saberão algumas coisas sobre eles.

Fonte: http://www.araraquara.com/opiniao/colunistas/ignacio-de-loyola-brandao/

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