Uma justa homenagem aos bons policiais

 
Por  Rafael Ferreira Vianna
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Hoje publico uma coletânea de artigos que escrevi para homenagear os bons policiais. Na verdade, tratam-se de três artigos, nos quais escrevi um pouco sobre a dura rotina policial e tentei, de alguma forma, homenagear os bons policiais, aqueles que arriscam suas vidas para proteger a sociedade. Os artigos podem não guardar uma sequência exata entre eles, mas pensei ser melhor reuni-los para publicação neste Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Eles apresentam um caráter muito pessoal, sendo que algumas vezes me refiro a policiais que participaram das equipes que coordenei, mas acredito que em muitos aspectos eles tratam de todos os policiais e todos podem em algum momento se identificar. Que sirva de homenagem e estímulo para todos os policiais que fazem bem o seu trabalho. Vamos ao primeiro.

Tomei esta decisão de homenagear os bons policiais hoje, domingo, dia em que costumo escrever minha coluna que é publicada na terça-feira, após trabalhar o dia inteiro ao lado de bons policiais. O hoje que digo, diga-se, na verdade é ontem, pois cheguei em casa apenas agora, 04 horas da madrugada de domingo para segunda. Ao meu lado, o dia inteiro, estiveram bons homens e grandes policiais. Outros tantos não estiveram hoje, mas em tantas outras oportunidades. Também é para eles que escrevo.

Observe-se que não pretendo com este artigo despertar pena ou compaixão de meus leitores, pois, além de não combinar comigo, nada mudará em minha vida ou na vida destes grandes homens. Escrevo para homenagear e agradecer, em nome de todos os cidadãos, pois me incluo entre eles, os grandes policiais que conheci em Alto Maracanã. 

Como já falei em diversas entrevistas, sempre existirão profissionais ruins na área de segurança pública, como em qualquer profissão, mas eles são, e sempre serão, a minoria. 

A homenagem é justa e necessária, pois a grande maioria das pessoas reconhece e aplaude ações específicas de tropas de elite e grupos especiais, mas esquece da importância dos policiais que estão nos Distritos ou que fazem o policiamento ostensivo básico. 

São estes policiais os mais importantes para a segurança pública e, consequentemente, para a sociedade, pois são eles que conhecem a região, suas dificuldades e suas necessidades. São estes policiais que prestam o primeiro atendimento ao cidadão e são estes homens que tantas vezes resolvem problemas não relacionados diretamente com a segurança pública, orientando, auxiliando e encaminhando. 

É este policial que não recebe a designação de “especial” o verdadeiro herói da segurança pública, pois trabalha com as dificuldades e perigos das situações mais corriqueiras e anormais, sem nunca saber o que lhe espera e o que enfrentará. 

Ressalte-se que de forma alguma menosprezo ou diminuo os grupos ou tropas especiais, os quais tem qualidades e importância incomparável para situações específicas, mas enobreço a função do policial dito comum. 

Estes bons policiais trabalham muito mais do que suas horas obrigatórias, se preocupam muito mais do que deveriam, arriscam suas vidas muito mais do que a prudência recomendaria. No entanto, apenas este policial sente o prazer de salvar uma vida, impedir uma injustiça ou fazer com que o algoz não consiga prevalecer sobre um pai de família. Não há recompensa maior. 

Por fim, agradeço os grandes momentos, as risadas, as amarguras e decepções deste bom tempo de Alto Maracanã. Sem nomes, por falta de espaço e pelo risco da ausência, mas com satisfação de ter conhecido homens extraordinários, policiais civis e militares.

O segundo artigo foi escrito como uma despedida da Delegacia de Polícia de Alto Maracanã, Colombo, uma das regiões mais violentas do Paraná.

Foi um ano de trabalho intenso e árduo na Delegacia do Alto Maracanã, em Colombo. Bons momentos, muitas lembranças, algumas tristezas e decepções, mas muito aprendizado. Este pode ser o resumo pessoal que levo deste um ano. Uma nova equipe assumirá o DP Alto Maracanã esta semana, sendo que, desde já, deixo meus votos de boa sorte e bom trabalho. 

Neste ano que estive como delegado titular do Alto Maracanã consegui realizar muito menos do que planejava, mas considero que algumas metas foram atingidas, ainda que longe do ideal para a população viver em segurança e tranquilidade. De qualquer forma, minha equipe realizou muito mais do que o possível, só me restando agradecer a boa vontade de todos os policiais que comigo trabalharam. 

Ainda que enfadonho para alguns, volto a parabenizar e destacar o caráter e o esforço dos policiais civis que neste um ano estiveram comigo. No início era apenas um amigo, o delegado adjunto André, hoje juiz, mas que sempre me fez continuar. Ao longo do tempo, muitas amizades se formaram, tendo hoje irmãos para sempre: meu superintendente, os gordinhos, o pernambucano, os negões…. Grandes homens, grandes irmãos. 

O que nos une é o que nos resta. E o que nos resta Vinícius de Morais? Resta essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido, essa tola capacidade de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil e essa coragem de comprometer-se sem necessidade. Resta esse desejo de servir, essa contemporaneidade com o amanhã dos que não tem ontem nem hoje. Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como ela é. Resta, por fim, esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir.

Isso que nos une, bons amigos, também nos mata, um pouco a cada dia, sem que possamos perceber e nos livrar. Tudo que escrevo deveríamos seguir também. E quantas vezes, caros leitores, já não falei que segurança pública começa dentro de casa, com a proximidade com seus familiares, com conversas e confiança? 

Pois é. Nós policiais não fazemos isso. Raramente temos tempo para nossas famílias e nos esquecemos de viver os bons momentos. Não deixem que isso aconteça com vocês bons policiais e amigos. Cuidem da saúde, da família, dos bons hábitos, das boas coisas da vida. Só assim vocês poderão servir por um longo tempo à sociedade. Difícil, eu sei. Mas devemos tentar. Apesar da aventura e prazer que é ser polícia. 

Se valeu a pena? Sempre. Tenho certeza que não pudemos satisfazer e ajudar a todos, mas tentamos, com o que tínhamos de melhor. Não houve um só dia em que não estivemos na Delegacia, fosse sábado, domingo ou feriado, noite ou dia. Ajudamos muitos e tentamos sempre. Aprendemos a fazer o bem não pelo prazer da recompensa, mas pelo dever da consciência. 

Como sempre falei para vocês irmãos: encontrei vários loucos que como eu não sabem o porquê servir, mas servem e riem. Valeu pelas risadas, pelas desventuras, pelos bons e maus momentos. Obrigado a todos que de alguma forma participaram disto. Comecemos em um novo lugar.

Por fim, o terceiro artigo homenageou um grande policial que deixou de alguma maneira a polícia, ainda que ele nunca a deixe totalmente.

Hoje tenho que render homenagem a uma grande pessoa que deixou a polícia esta semana. Escrevo este artigo para eternizar minha admiração a este policial – que exigiu não ser identificado – e dividir minha preocupação com o futuro da polícia, da sociedade e das pessoas de bem. A mediocridade fez com que um grande homem e excelente policial se aposentasse antes do necessário. 

Este policial, como tantos outros tenho certeza, deixa a polícia desabafando que leva de seus poucos anos como policial apenas três coisas: decepção, mágoa e pena dos ingênuos que ainda ficam. É triste ouvir isto e preocupante, como falei, para a sociedade. Algo está muito errado e precisamos começar a pensar no que é.
Este grande homem começou na polícia com ideais e sonhos de mudança, se negou a atos duvidosos no início, começou a se acostumar a coisas demais para não sofrer, se perdeu, deixou de ser quem era. A polícia passou a ser a sua vida. Tudo era passível de ser arriscado em prol do prazer e da satisfação de ser um “herói”, salvar pessoas. E, como ele mesmo me disse, sempre fez isso aceitando o preço e não exigindo nada mais da sociedade. Amou sua instituição, a defendeu, protegeu companheiros e amigos. Os perdeu. Conheceu o pior do ser humano e de si mesmo.

Acredito – quem sou eu, mas vamos lá – que seu grande erro foi se acostumar a coisas demais para não sofrer e aceitar que pessoas medíocres com ele dividissem a mesma estrada. A decepção foi inevitável, pois, como disse, começou a ver o pior do ser humano e de si mesmo, chegando o dia em que não mais se reconheceu. Mas um grande homem nunca deixa de ser o que é. 

Este policial cansou e hoje desistiu, infelizmente. Não como um perdedor, mas com a coragem que sempre teve para dizer chega. E voltar. Voltar a ser o que nunca deixou de ser, mas por alguns momentos, acredito, esqueceu. Não há romantismo na guerra, caros leitores. O único objetivo é voltar para casa e esta semana este guerreiro esta voltando para casa. A guerra quase lhe tirou tudo.

É uma pena que tão cedo, mas – em suas palavras – cansou de estar sozinho e lutar ao lado de pessoas medíocres, que viam cada ato de bravura como um ato de autopromoção, cada grande ideia com desconfiança e inveja, cada boa ação como um ato criticável de ingenuidade. 

Entendo você, nobre companheiro. A massa da mediocridade, que nada faz e nada cria, tenta puxar os homens de boa vontade para baixo, para se juntarem a massa inerte e covarde, que só sabem falar da vida dos outros. Por que as pessoas se importam tanto em falar mal da vida dos outros, principalmente daqueles que são bons? 

E este policial era bom. Tinha nascido para isso. É uma pena que mais uma vez os medíocres – aqueles que não tem aptidão e competência nem para o bem e nem para o mal – saiam achando que venceram. Mas não venceram, pois um grande homem nunca perde. Ele apenas voltou para casa, de onde nunca deveria ter saído em um mundo que não está pronto para ele. Lembrem-se: “É melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se a derrota; do que formar fila com os pobres de espírito, que não ganham muito nem perdem muito, porque vivem na penumbra cinzenta dos que não conhecem vitória nem derrota”.
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1 comentário

  1. REINALDO CESAR CAMARGO GÓES · outubro 25, 2012

    HOMENAGEM JUSTA E MAIS QUE NECESSÁRIA…

    O QUE DIZER DO ÓBVIO? NÃO OU SIM AO CONFORMISMO?

    NÓS, PESSOAS DE BEM, FAZEMOS O QUE O ÓBVIO NUNCA COMPREENDE…

    NUNCA DEVEMOS NOS COMPACTUAR COM O CONFORMISMO DE QUEM TENTA FRUSTRAR OS NOSSOS SONHOS…FASCÍNORAS E MALFEITORES INSACIÁVEIS!

    A LUTA É ETERNA CONTRA” ELES”…VIGIAI SEMPRE, PARA QUE NÃO SEJAIS SURPREENDIDOS PELO MAL…ENSINOU-NOS O MESTRE JESUS DE NAZARÉ!!!

    A DERROTA DO HERÓI ESTÁ ESTAMPADA, APENAS, NOS CORAÇÕES IMUNDOS DOS INFÂMES E DESONRADOS

    O HERÓI VERDADEIRO, NUNCA É DERROTADO… NUNCA MORRE…

    CHORA DE ALEGRIA E RI COMO UMA CRIANÇA INOCENTE, QUANDO VÊ A JUSTIÇA E A BONDADE PREVALECER NO SEIO DA MALDADE, POIS ACREDITA VERDADEIRAMENTE NA MÁXIMA DAS FLORES…

    QUANDO ESMAGAMOS AS PÉTALAS DE UMA FLOR, ELA NOS PRESENTEIA COM O SEU PERFUME…

    REINALDO CESAR CAMARGO GÓES

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