ENTREVISTA DO COMANDANTE GERAL DA POLÍCIA MILITAR AO JORNAL DIÁRIO DE SÃO PAULO – EDIÇÃO DE 14/01/2013

Vamos acompanhar cada PM envolvido em morte

Cristina Christianocristinamc@diariosp.com.br

Reinaldo Canato/Diário SPCoronel Meira diz que quer acabar com a sensação de inseguraça da população

O comandante-geral da PM, coronel Roberto Meira, de 50 anos, quer submeter todo policial envolvido em ocorrências que resultarem em morte a acompanhamento, por pelo menos três meses, antes de ele retornar às atividades nas ruas.

“O objetivo  não é punir, mas colaborar para a preservação da saúde do policial, o aprimoramento dos procedimentos padrões e também para benefício da população. Morte é algo que deve ser levado muito a sério”, afirma o novo “chefe” da PM paulista, que assumiu o cargo no final de novembro em meio aos ataques do PCC às forças do Estado e com a ordem de controlar a corporação.

A intervenção terá três fases. Na primeira, o policial passará por entrevista psicológica no CAS (Centro de Atendimento Social) da PM. “Quero entender se o evento morte não causou traumas e se ele está apto a retornar às mesmas atividades ou precisa ir para outra função.”

No mês seguinte, esse policial terá treinamento de capacitação, com base nos erros cometidos, para melhorar seu desempenho. “O PM trabalha sob tensão, com adrenalina a mil e tem de tomar decisões em frações de segundos. Às vezes ele erra e isso pode custar sua carreira e até sua liberdade”, diz, citando o exemplo recente ocorrido em Avaré, no interior, onde um PM baleou por engano um homem que estava com uma “Bíblia” nas mãos e está preso.

Na terceira fase, o policial visitará uma série de entidades assistenciais, para conhecer pessoas que passam pelos mais diferentes tipos de dificuldades e trabalhar com elas. Depois, terá outra avaliação psicológica antes de retornar às ruas.

INTERVENÇÃO POLICIAL 
O comandante afirma que a PM não vai tolerar ações não amparadas em lei. Uma comissão, formada por dois PMs e dois delegados, analisará todos os casos decorrentes de intervenção policial e a Corregedoria, que passará a ir nos locais, levará os envolvidos à delegacia. “A equipe vai questionar cada detalhe da ocorrência. Se houver um senão vamos pedir a prisão temporária ou preventiva de todos. O policial que agir dentro da lei não tem com o que se preocupar”, observa.

SOCORRO DE BALEADOS 
O coronel explica que a resolução da Secretaria da Segurança Pública, proibindo  PMs de socorrer baleados, foi feita com o aval de três chefes de polícia (PM, Civil e Científica). “É um protocolo institucionalizado no mundo todo e aqui já é feito no trânsito. Ele legitima a ação do PM, a deixa mais transparente e evita sequelas nos feridos. Não temos PMs com treinamento de paramédico e já vi muita gente  ficar paraplégica ou mesmo tetraplégica por ter sido socorrida de maneira errada”, comenta. Segundo o coronel, a estimativa de chegada ao local de atendimento das equipes do resgate do Corpo de Bombeiros é de 18 minutos e, do Samu, seis. “Agora, se o policial ligar para as unidades e não houver viatura disponível,  é evidente que ele é quem vai socorrer”,  afirma.

MAIS POLICIAMENTO 
O comandante está fazendo um levantamento para diagnosticar onde estão distribuídos os PMs, conhecer o efetivo real de cada unidade e levantar qual é o necessário para a região. A intenção é realocar o excedente no radiopatrulhamento. Uma outra medida é repassar novamente para a Secretaria da Administração Penitenciária a responsabilidade pela escolta de presos e, com isso, colocar na rua os 1,5 mil PMs hoje encarregados dessa função. “No passado liberamos para o policiamento quatro mil PMs que faziam a guarda nas muralhas de presídios ao substituí-los por agentes de segurança penitenciária.”

NOVAS ESCALAS 
A partir de 1 de fevereiro, todos os PMs do radiopatrulhamento terão as escalas de trabalho alteradas. Hoje, os turnos são de 12 por 24 horas (trabalha 12 horas e folga 24 horas) e 12 por 48 horas. Com a mudança, passarão para 12 por 36 horas. “Isso permitirá que eles trabalhem dia sim, dia não e tenham um final de semana inteiro por mês de descanso. Também ajudará a fazer justiça, pois no esquema atual a equipe da noite fica no mesmo horário por 15 dias. Já com o novo sistema terá sete dias de trabalho diurno e oito noturno em uma quinzena e o inverso no período seguinte. Isso permitirá ainda que todos possam atuar na Operação Delegada (o bico oficial).”
O comandante afirma que a sua intenção, após a readequação dos efetivos, é ampliar de quatro para cinco as equipes do radiopatrulhamento, de modo que os policiais passem a trabalhar em turnos de oito horas.

CRIMINALIDADE 
O coronel diz que um de seus maiores desafios é acabar com a sensação de insegurança da população. Para tanto, encomendou uma ampla pesquisa de opinião para saber o que os paulistas pensam da PM e o que esperam dela. Com base nesses resultados, promete aperfeiçoar e melhorar o desempenho da tropa. “Muitas vezes a comunidade clama por bases comunitárias,  com a falsa sensação de que aquilo vai resolver o problema  da criminalidade”, comenta. “Tivemos um ano difícil em 2012, o envolvimento de PMs em mortes deu a sensação de ataques e, em alguns casos, houve mesmo, aumentando a insegurança. Os indicadores apontam que a taxa de homicídios deverá fechar entre 11,5 e 12 por grupo de 100 mil habitantes. Mesmo assim, ainda é a menor se comparada com a do resto do pais. Isso demonstra que estamos no caminho certo”, observa.

IMPUNIDADE 
Roberto Meira defende leis mais rígidas para ajudar no combate ao crime. “A criminalidade não tem ligações com a pobreza, mas sim com a impunidade”, afirma.  Ele cita o exemplo de Nova York, onde a  taxa de criminalidade caiu para  5,4 homicídios por 100 mil habitantes após a mudança na legislação. “Lá, por exemplo, crimes praticados contra policiais passaram a ser punidos com mais rigor.”

ROUBOS 
O roubo é o crime que mais aumenta a sensação de insegurança, diz, lembrando que a droga é a mola propulsora desse tipo de ação. “Nas estatísticas da Secretaria da Segurança, no item que se refere a roubos/outros, 70% dos casos são praticados contra transeuntes e 80% desse total têm como alvo o celular, cuja liquidez é rápida”, observa. Segundo o coronel, as estatísticas mostram que a maioria dos autores de roubo são usuários de droga, pessoas que fumam, em média, de cinco a 12 pedras de crack por dia e precisam de dinheiro para sustentar o vício.

‘BIQUEIRAS’ 
O coronel Meira lembra que o Brasil é o primeiro consumidor de crack do mundo e o segundo em cocaína. “Isso acontece porque a droga é barata, custa de R$ 5 a R$ 10 a pedra e entra fácil no país. Se não houver a retenção da droga nas fronteiras, desde o momento em que ela entra no país, continuaremos enxugando gelo. Cada um tem de fazer a sua parte. A minha, que é combater as ‘biqueiras’  (pontos de venda), eu faço.”

DESVIO DE CONDUTA 
O comandante afirma que a PM não tolera desvios de conduta na tropa. Segundo diz, os casos de policiais envolvidos em crimes são pontuais, um percentual pequeno dentro do universo da Polícia Militar, mas admite que chamam a atenção e denigrem a imagem da corporação. “Vamos fortalecer a Corregedoria e incentivar a fiscalização, do soldado ao coronel, um olhando o outro.”

LEI SECA 
As blitze vão continuar, com maior intensificação em feriados e fins de semana. “Agora, com multas pesadas e a caracterização do flagrante de quem dirige embriagado com vídeo e uma testemunha, ficará mais fácil o combate.”

‘Bico’ oficial será ampliado na capital com novas atividades
A Operação Delegada, também conhecida como “bico oficial”,  será ampliada em São Paulo para permitir que mais  PMs possam participar e aumentar seus rendimentos.  A operação, criada pelo  ex-comandante da PM coronel Álvaro Camilo, hoje vereador pelo PSD, permite que o policial trabalhe fardado e com a arma da corporação em dias de folga, além de garantir a ele todos os direitos  assegurados  na corporação, como, por exemplo, o seguro para a família em caso de morte.

Segundo o coronel Roberto Meira, hoje há 3.898 PMs participando da operação nas ruas de comércio das  31 subprefeituras.  Além de atuar no combate ao crime, reprimem o comércio irregular. A intenção do prefeito Fernando Haddad (PT), diz o comandante, é delegar aos policiais outras  funções compatíveis com a atividade fim, como a fiscalização do Psiu em bares e restaurantes e  táxis.

A operação permite ao policial aumentar a sua renda sem abrir mão do descanso e com o aval  do comando. Cada PM pode trabalhar até 80 horas por mês.  Por hora, praças e soldados ganham R$ 19,72  e oficiais,  R$ 26,32.

Principais intervenções da Polícia Militar
* números entre janeiro e novembro de 2012

INTERVENÇÕES TOTAL
Atendimentos sociais 2.360.022
Resgate 549.881
Veículos localizados 71.517
Prisões em flagrante 91.075
Atos Infracionais 41.008
Procurados capturados 18.304
Armas apreendidas 11.944
Apreensão entorpecentes 53.224

Fonte: Polícia Militar do Estado de São Paulo
DSP

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