MORTES TRÁGICAS E ESPECULAÇÕES DESVIRTUADAS

 

 

Se o médico não tivesse faltado ao plantão de um hospital público a menina vítima de bala perdida num subúrbio do Rio poderia estar viva. Se a Justiça não tivesse beneficiado o sujeito hoje preso como suspeito de assassinar a moça grávida de nove meses em São Paulo ela poderia estar agora feliz com a filha recém-nascida.

Esses dois episódios, ocorridos entre o fim do ano passado e o início deste ano, são exemplares da maneira pela qual a imprensa pode sugerir uma falsa relação de causa e efeito a partir da adoção de uma lógica que parte das consequências de um fato para apontar responsabilidades e generalizar conclusões simplificadoras, embora – talvez por isso mesmo – muito palatáveis ao senso comum.

O primeiro caso é o da menina Adrielly Vieira, atingida por uma bala na cabeça na noite da véspera de Natal, quando – de acordo com o noticiário – ia mostrar à mãe a boneca que ganhara de presente. O outro é o da jovem Daniela de Oliveira, que chegava em casa na noite do dia 8/1 e foi atacada por bandidos ao sair do carro, estacionado ao lado do condomínio onde morava.

A busca do culpado

O caso Adrielly tinha todos os elementos para se tornar uma pauta de impacto: uma menina pobre, um presente de Natal, uma bala perdida, a angustiante espera na emergência imóvel, a omissão de socorro, a agonia e, dias depois, a morte.

Se o atendimento tivesse sido adequado, e ainda assim a menina viesse a falecer, provavelmente o caso deixaria de ser notícia logo após o enterro e os habituais protestos por justiça e segurança. A falha no socorro suscitou desdobramentos que poderiam ser muito reveladores da situação da saúde pública, mas a ênfase recaiu sobre a ausência do neurologista que deveria estar de plantão, com uma sequência de matérias que o incriminavam, a ponto de se insinuar que ele seria indiretamente o responsável pela morte da menina.

O tiro que motivou a emergência ficou em segundo plano, embora tenha ocorrido numa região que registrou naquelas duas semanas várias ocorrências semelhantes, inclusive com desfecho fatal. Tampouco se acentuou o absurdo das oito horas de espera para o atendimento: por que a menina, diante da ausência do plantonista, não foi imediatamente removida para outro hospital? Haveria conflitos internos que pudessem explicar a falta dessa providência, de modo a jogar com a vida de uma pessoa – mais ainda, de uma criança – para expor a ausência recorrente de um profissional?

A previsível opção pela busca de um culpado imediatamente visível – o médico que faltou ao plantão, e mais tarde se apuraria que provavelmente jamais comparecera àquele hospital – resultou até numa entrevista aoGlobo (7/1) cujo título desvirtuava o sentido das declarações: “Não me sinto culpado pelo que aconteceu a ela“. Qualquer um se encheria de ódio diante de tal afirmação, mas, mesmo que ela refletisse a verdade – e, portanto, expusesse a insensibilidade de quem, por dever de ofício, se compromete ao máximo esforço para salvar vidas e aliviar a dor –, seria isso o mais importante?

Sabemos que os jornais tendem à exploração do apelo emocional como forma de atrair a atenção do público, mas frequentemente esse apelo é desvirtuador. O escândalo da falta de atendimento e da emergência inoperante poderia ser utilizado como ponto de partida para revelações consistentes, mas para isso seria preciso conhecimento de causa, a partir da consulta a fontes adequadas, para não se ficar apenas no imediatismo da reverberação de declarações, inclusive das autoridades com suas rotineiras manifestações de indignação e promessas de providências urgentes.

Questões de fundo

A repercussão do caso levou o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro a emitir nota, publicada noGlobo (17/1), acusando o prefeito do Rio e o secretário municipal de Saúde de promoverem “uma campanha de desmoralização da categoria médica, baseando-se num fato isolado” e ressaltando a insuficiência de médicos no serviço público, os baixos salários, a discrepância de remuneração entre os efetivos e os temporários e a falta de investimento no setor. Dois dias depois, a nota foi classificada como “um tiro no pé” pela coluna de Ancelmo Gois, do mesmo jornal (ver aqui), pois a entidade estaria “de alguma forma” protegendo “um médico useiro e vezeiro em faltar a plantões num serviço tão essencial para nossa população pobre”. O colunista reconhecia, entretanto, que o governo era “o principal responsável pelo descalabro na saúde”.

Fosse esse o enfoque da cobertura decorrente do “caso Adrielly”, teríamos a hipótese de uma perspectiva ampliada sobre os motivos que levam ao desespero numa situação de emergência.

A nota do Cremerj, entretanto, justamente por sua origem, tende a ser desqualificada como “corporativa”, mesmo porque a falta do plantonista – e, além disso, a ausência de um substituto – não é “um fato isolado”, como indica a médica Lígia Bahia em artigo no Globo de segunda-feira (21/1):

“A existência de rotinas largamente disseminadas, como a sublocação da vaga de médicos e enfermeiros nos serviços públicos de saúde, provocou espanto, em função da associação automática entre alteração de identidades com a desonestidade e inaplicabilidade da regra a profissionais tão dedicados como os de saúde. Mas as explicações para a existência de um mercado colateral de trabalho são banais. Quem obtém melhor remuneração em outros postos opta por manter o cargo com o intuito de obter vantagens na aposentadoria, e contrata seus substitutos, mediante a transferência do salário para colegas geralmente situados em posições iniciais na carreira. Trata-se de uma autorregulação consentida e legitimada, que falha quando as oportunidades de maiores remunerações permitem a recusa de plantões em feriados, fins de semana, locais distantes da residência etc”.

Para combater esse estado de coisas, diz a autora, seria necessário definir com clareza a política de saúde. Porém, “ora somos o farol do mundo com nosso sistema universal e igualitário, ora o país que desponta como sede de um portentoso mercado de planos de saúde”, e por isso “a definição de encargos é uma missão quase impossível”:

“A necessidade de proteção simultânea de interesses públicos e privados, incluindo aqueles que extrapolam os limites do sistema de saúde, funciona como um poderoso escudo antirresponsabilidade. Como ninguém é responsável, todos denunciam. O preâmbulo de qualquer discurso sobre saúde é a denúncia sobre faltas. O que varia é a ênfase na falta. Uns preferem a falta de gestão; outros, de financiamento. São essas falsas pistas que estimulam temporadas de caça sazonais e seletivas aos médicos, aos medicamentos, aos leitos, aos equipamentos e resguardam a troca de uma política de saúde por um punhado de interesses particulares e imediatistas”.

São considerações que permitiriam um preparo adequado para articular o imediatismo que caracteriza o trabalho jornalístico – a cobertura de um acontecimento singular, como este episódio de omissão de socorro – ao devido contexto que permitiria compreender este aspecto tão crucial de nossa realidade.

Combater ilusões

O caso de Daniela de Oliveira também tinha todos os elementos para emocionar o público: jovem, grávida de nove meses, vítima de um tiro na cabeça numa suposta tentativa de assalto no momento em que voltava para casa; a filha que sobrevive no parto feito às pressas, a mãe que logo é declarada morta. E o principal suspeito, preso dias depois, condenado em regime semiaberto mas foragido da Justiça, que nesse meio tempo lhe havia concedido liberdade condicional.

Este fator desencadeou as especulações, apresentadas no Fantástico(13/1) e logo reproduzidas em outros telejornais da emissora: se aquele rapaz, que além do mais havia sido preso duas vezes nos 40 dias anteriores ao crime, estivesse recolhido ao sistema penal, talvez a moça estivesse hoje comemorando o nascimento da filha.

Talvez, como bem sugeriu o repórter: pois evidentemente ninguém pode garantir o que nos acontecerá no minuto seguinte, sobretudo no cotidiano conflituoso e tenso das metrópoles, embora gostemos de imaginar a possibilidade de prever e prevenir situações de risco. E, nesse caso, a “culpa” é da Justiça que deixou o futuro assassino à solta, como numa espécie de profecia autocumprida. Aliás, o mapa apresentado pelo Fantástico, delimitando o raio de 1,5 km entre o local do crime e o das duas detenções mais recentes do suspeito, reforça essa ideia: é como se assistíssemos agora, impotentes diante do fato consumado, ao perigo que sempre esteve à espreita.

Com a ajuda de um criminalista qualificado, a reportagem mostra aspectos da burocracia do aparelho judiciário que facilitam a ocorrência de erros. Aparentemente, de fato aquele rapaz deveria estar preso. Porém, se estivesse, teríamos apenas uma certeza: a de que ele, se é mesmo o autor do disparo que vitimou a jovem grávida, não teria cometido aquele crime, num trecho escuro de uma rua que favorece esse tipo de ação noturna.

Qualquer outra insinuação é excessiva e favorece ilusões que o jornalismo deve, justamente, ajudar a combater.

***

[Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]

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