ALÉM DA FARDA CINZA

                                                                                                                                  (*) Aluisio Antônio Maciel Neto

Mausoléu

O choro contido de um policial militar no velório de seu companheiro de farda, queimado vivo em uma favela do Rio de Janeiro, revela o que poucos enxergam: há muito mais por trás de uma farda cinza. Há homens, mulheres, pais ou filhos de uma mesma sociedade desigual, hipócrita e violenta.

Negligenciados por um Governo incompetente, ignorados por uma imprensa ideologicamente pautada, os “fardas cinzas” enfrentam diariamente uma guerra, cruenta e velada, que se quer escondida da opinião pública.

A morte de um “farda cinza” é prêmio ou prenda para que um criminoso ingresse ou permaneça em uma organização criminosa. Mata-se policial para se livrar de dívida com a facção criminosa. Mata-se policial para ingressar na mesma corja. Mata-se policial, simplesmente, porque ele cumpriu sua função de proteger a sociedade, de preservar a vida de quem ele nem mesmo conhece, mas que por ideal de vida se coloca em risco para defender seus valores. Mata-se policial, enfim, por ser um policial.

Enquanto isso, enquanto mortes de policiais se sucedem em uma sociedade dita “ordeira”, o Governo fecha os seus olhos. Edita atos e mais atos para conter as ações policiais.

Aliás, vide a Nota de Instrução PM 3 – 002/03/13, que pressupõe a presunção de culpabilidade de um policial militar em ocorrência que resulte morte, de bandidos ou de companheiros de farda, e afasta os agentes envolvidos de suas funções. Negam a eles o direito de todo e qualquer cidadão, a bradada presunção de inocência. Negam a eles o princípio que permeia todo ato de agentes públicos, o preceito de presunção de legitimidade de suas condutas. Rendem-se os governantes ao comodismo do politicamente correto, mesmo que isso seja o preludio de uma “condenação” a ser realizada pela “opinião pública”. Afinal, são apenas “fardas cinzas”, que podem ser facilmente vestidas por outros.

A imprensa? Ah, a imprensa…

Embevecidas pela ideologia marxista de eterno embate entre Estado e indivíduos, sem distingui-los entre bons e maus, e incentivada pela covardia de um posicionamento governamental, escolhem suas pautas a fim de manter a velha divisão dentre “explorados” e “exploradores”.

Sob as vestimentas de uma humanidade virginal, formadores de opinião repetem o mantra de que criminosos “são vítimas da sociedade”, da falta de condições sócio econômicas propiciadas pelo “Leviatã”, olvidando-se de que ao ser humano é destinado o Livre Arbítrio, a capacidade de distinguir entre o certo e o errado.

Assim, a imprensa define qual realidade se amolda a sua ideia preconcebida de sociedade. Esconde a guerra existente entre policiais, personificando-os injustamente pelo “Estado opressor”, e a criminalidade organizada. Levantam diversas suspeitas precipitadas de excessos policiais, e não revelam as circunstâncias torpes, dissimuladas, utilizadas pela criminalidade na execução rotineira desses agentes do Estado.

Preferem dizer que, certa feita, houve a morte do dublador do Harry Poter, ao invés de frisar e destacar que, antes dessa função, existia um policial militar assassinado no exercício de suas funções.

Assim, a falta de informação verdadeira, comprometida, acaba por acometer a sociedade de uma espécie de miopia coletiva monocromática, que se acostumou a enxergar os “fardas cinzas” tão somente como objetos. Equiparados aos veículos ou armas que carregam. Peças descartáveis, portanto, de um Estado falido.

Ao ver a imagem desse policial, lembrei-me de uma experiência vivida há dois meses. O funeral de um policial militar, morto enquanto tentativa impedir mais um roubo a banco.

Ele estava à paisana, poderia ter evitado o combate. Mas resolveu agir, em solidariedade aos seus companheiros e em defesa do ideal que jurou defender.

Em seu sepultamento, aquele homem que deixou sua casa pela manhã e não voltou, transformou-se em uma bandeira dobrada, entregue solenemente à sua mãe inconsolada, com os pesares e as honras do dever cumprido.

E, enquanto seu corpo descia rumo ao sepulcro, apenas uma voz quebrou o silêncio que se fazia. A voz de uma menina, de apenas 9 anos, pouco mais do que tem a minha filha, a gritar: Pai! Pai! Pai! Pai!….

Gritos que se sucederam e que não tiveram respostas, pois a única resposta esperada era daquele que já tinha ido e não mais voltaria…

Naquele dia e em outros tantos que se seguiram, certamente havia apenas o silêncio e muito mais do que as “fardas cinzas”.

(*) É  2º Promotor de Justiça da cidade Piracicaba

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