NÃO PRECISAMOS MAIS DE HERÓIS: BASTAM OS QUE JÁ TEMOS!

 

 

(*) Humberto Gouvêa Figueiredo

 

Para alguns momentos e situações de nossas vidas, o silencio é o melhor discurso!

Hoje, para mim, talvez devesse ser o caso de aplicar esta regra: não deveria me manifestar… deveria apenas meditar sobre as experiências que vivi, sem me expor, sem dizer o que se passa no meu coração; mas se eu agisse assim, estaria contrariando os meus princípios e valores e não conseguiria dormir tranquilo.

Então, por alguns minutos vou me esquecer do que tenho a perder e externar no papel, em breves linhas, o que penso em face do que passei nas últimas 17 horas.

Meu dia começou às 4 horas da manhã, quando recebi uma ligação telefônica de um colaborador noticiando que mais duas dezenas de criminosos tinham praticado um roubo à uma empresa de guarda de valores na cidade de Ribeirão Preto e, que na ação delitiva, tinham usado armamento pesado e artefatos explosivos, bem como disparado com arma de fogo em via pública, com intento de evitar a aproximação dos policiais militares que patrulhavam a noite, até então tranquila, na cidade.

Alguns poucos minutos depois, recebo uma outra ligação, agora dando conta de que, durante a fuga, os criminosos tinham atirado contra uma patrulha de policiais militares rodoviários, e um dos tiros tinha acertado um PM na região da nuca: ele tinha sido socorrido, porém seu estado era gravíssimo e suas chances de vida muito reduzidas, o que de fato se confirmou no início da manhã, quando veio a falecer o Cabo PM Tarcísio Wilker Gomes, da 4ª Cia PM do 3º Batalhão de Polícia Rodoviária.

Tinha programado na data de hoje visitas às cidades de Viradouro, Terra Roxa e Bebedouro, na área do Batalhão de Barretos (33º BPM/I), mas, diante da gravidade da ocorrência em Ribeirão Preto, as cancelei e fui logo no início da manhã para lá.

A primeira atitude que tomei ao chegar à Ribeirão foi ir para o local onde tinha sido vitimado o Cabo PM Wilker, para saber detalhes da ação que tinha produzido o mais recente Herói da Polícia Militar: me entrevistando com os policiais militares que preservavam o local à espera da Polícia Técnico Científica, soube que o policial militar recebeu um tiro na região da nuca, quando já estava já deitado no solo para se proteger e modulando na rede rádio, provavelmente solicitando apoio de outras equipes. Ele tinha adotado todos os procedimentos técnicos que a situação exigia e, fatidicamente, tinha perdido a vida por uma ação criminosa.

Deixei o local e segui para a empresa de guarda de valores, para verificar o cenário e me apropriar das informações sobre a ocorrência no local dos fatos.

O que vi me assustou!

Um quadro de destruição, semelhante ao que assistimos na televisão nos países em guerra.

Fui conversando com vários policiais militares que estavam de serviço, oficiais e praças, e na medida em que fui recebendo detalhes do que tinha se passado, fui ficando ainda mais perplexo com a ação criminosa praticada.

As armas usadas, a quantidade de disparos efetuados, o incêndio de carros, a destruição de transformadores de energia, a explosão na empresa: cada dado aumentava ainda mais meu sentimento de indignação e preocupação.

Em dado instante me senti fraco, sem respostas para justificar tamanha ousadia e violência dos agressores da sociedade.

Passei o dia inteiro sem coragem de olhar nos olhos dos meus colaboradores, para não correr o risco de ouvir de um deles a pergunta “comandante, o que o senhor pode fazer para que o próximo herói não seja eu?

Derramei lágrimas ao refletir sozinho sobre a morte de mais um irmão de farda numa área sob minha responsabilidade (já nem sei quantos são!!): desta vez a de um jovem profissional, com uma carreira toda pela frente, que tinha feito o que deveria fazer, mas que, ainda assim, deixou para trás uma viúva, um filho órfão de pai, uma família desolada e uma dor sem tamanho no coração daqueles que, como Wilker, escolheu a Polícia Militar por vocação.

Refleti sobre o cenário de guerra que presenciei e me perguntei (sem saber responder), onde é que vamos parar? Qual o tamanho da maldade e da violência daqueles que atacam a sociedade?

Falei com Deus, nas minhas orações, as muitas que fiz durante o dia, e pedi forças para seguir meu caminho, cumprir minha missão, continuar lado a lado com meus homens e mulheres na defesa da sociedade.

Clamei a Ele para que o Cabo Wilker fosse o último dos nossos Heróis, pois não precisamos de mais nenhum!

Já são 19 horas, acabo de retornar do sepultamento de Wilker: meu dia termina, mas a dor do coração ainda persistirá por muito tempo.

 

(*) é coronel da Polícia Militar e comandante da região de Ribeirão Preto

 

 

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