DOIS PESOS E UMA MEDIDA

 

(*) Humberto Gouvêa Figueiredo

 jornalistas-e-policiais

Vi uma notícia no último feriado de 7 de setembro que me chamou a atenção: dizia que jornalistas do site “UOL”, teriam sido vítimas de agressões por parte de pessoas que se manifestavam contra o Presidente da República, Michel Temer, em Brasília.

Não foram exatamente as agressões que me despertaram o interesse pelo assunto, até porque, acompanho  pelos veículos de comunicação e constato que elas (a violência) têm sido prática comum por uma parte das pessoas que vão para as ruas manifestar (friso bem que não estou generalizando, mas me referindo a um grupo, que em regra, covardemente esconde o rosto, para agredir, atacar, depredar e vandalizar).

O que me deixou perplexo foi a ênfase dada no texto a respeito da qualidade das vítimas das agressões: “qualquer violência contra jornalistas é uma agressão contra a Constituição e contra a Liberdade de Expressão” (g.n.).

Aprendi ao longo do tempo algo que sempre considero na minha relação com a imprensa: quem é o dono do microfone, da câmera e do computador da redação (ou do site), sempre vai dar a última e a mais destacada das versões.

Me pergunto e também questiono a você que me lê, por qual razão a integridade física ou a vida de um profissional da imprensa tem mais valor ou afeta mais a Constituição do que a minha ou a sua?

Acompanho, no dia a dia, repórteres desesperados em busca da melhor imagem ou da cena inédita, expondo-se a riscos e, não poucas vezes, comprometendo a segurança da ação ou operação policial. Lembro-me da repulsa que houve quando foi proposto pela Polícia que usassem, durante as manifestações sociais, coletes que os identificassem como jornalistas: a maioria não aderiu pois isto os impediria de, por exemplo, se infiltrar e passar  por manifestantes, podendo assim elaborar textos enviesados, como aliás muitos o fazem.

Não é no mínimo estranho o fato de que a mesma ênfase não é dada pela imprensa quando as vítimas de agressões são policiais militares? Ou esta categoria profissional, responsável pela manutenção e preservação da ordem, sendo vitimada, não gera qualquer relevância constitucional ou para a sociedade?

Quando a Organização das Nações Unidas determina a proporção de 1 agente de segurança (policial) para cada 350 habitantes ela está dizendo que este é o número de pessoas protegidas pelo policial: quando ele é atacado ou agredido, a interpretação que se deve fazer é a de que todas as pessoas que estão sob sua tutela (direta ou potencial), ou seja, 350 para cada policial, foram também afetadas.

Neste sentido, por que não se dar “peso” à notícia quando o policial militar é lesionado por manifestantes? Por que a imprensa não dá o mesmo destaque que faz quando a vítima é um jornalista, um cinegrafista ou um fotógrafo…

Não seria o caso do mesmo corporativismo que tanto é combatido em textos jornalísticos?

Para pensar….ou para apenas se indignar….

(*) é coronel da Polícia Militar e comandante do policiamento na região de Ribeirão Preto

 

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