VALEU A PENA! FOI MUITO BOM ENQUANTO DUROU!

Movimentação

Conforme publicação inserta no Diário Oficial de hoje, 17 de março de 2017, por decisão do Comando Geral da Polícia Militar, ratificada pelo Governador do Estado em Decreto por ele assinado, fui designado para assumir o Comando da Escola Superior de Soldados, na capital do Estado, desligando-me a partir de hoje, do Comando de Policiamento do Interior – 3, região de Ribeirão Preto.

Assumi o Comando da região de Ribeirão Preto no dia 28 de março de 2016 e lá permaneci por intensos 354 dias, experimentando momentos de grandes alegrias e de alguns sofrimentos: muito mais alegrias do que sofrimento…

Me preparei para comandar a polícia ostensiva de Ribeirão Preto: como cumpri quase 2/3 da minha carreira aqui na região, servindo no 13º Batalhão de Polícia Militar (Araraquara), conhecia a cultura da área, a quase totalidade da oficialidade e das praças e, antes de aqui aportar, estudei detidamente a região e suas necessidades e medidas que poderiam ajudar a ampliar a sensação de segurança do povo que vive ou transita por aqui.

Vim com o sonho de me tornar um grande e inesquecível Comandante, até porque assumi com a responsabilidade de substituir uma das minhas maiores referências na Polícia Militar, senão a maior, o meu amigo Coronel PM José Roberto Malaspina, hoje já merecidamente gozando a aposentadoria.

Organizei o meu comando na região de Ribeirão Preto baseado em cinco eixos estratégicos:

1. Gestão baseada na transparência;

2. Priorização da atividade operacional (o policiamento ostensivo);

3. Sedimentação da filosofia de polícia comunitária, com foco na aproximação entre a Polícia Militar e a Comunidade;

4. Fortalecimento institucional e político da PMESP na região de Ribeirão Preto; e

5. Busca da Excelência em todas as ações realizadas.

Posteriormente, durante minha gestão, um sexto eixo foi incluído: a implantação de um modelo de liderança baseada no conceito da “liderança servidora”.

Para conscientizar a liderança (oficiais e sargentos) da importância do direcionamento do trabalho baseado nos eixos estratégicos definidos, fiz questão de me deslocar logo na primeira semana que cheguei a todas as sedes de batalhões, reunindo-me com todos os oficiais das Unidades, detalhando exatamente o que deveria ser feito, o caminho que seguiríamos e onde queríamos chegar. Pedi (e aconteceu) que as informações que transmiti chegasse ao conhecimento do mais novo Soldado em cada localidade.

O primeiro e exitoso projeto implantado, hoje já consolidado, foi as “Audiências Públicas com a Comunidade”: eventos trimestrais, presididos pelos respectivos comandantes locais da PM e supervisionados por um oficial superior de cada batalhão, as audiências públicas constituem num importante momento para interação com a comunidade, visando a prestação de contas, a apresentação do plano de trabalho e, especialmente, a possiblidade de ouvir os reclamos e anseios da comunidade. Estabeleceu aquele que imagino ser a melhor forma de controle da atividade policial: o controle social, feito pela comunidade.

Ao longo de minha gestão foram realizadas pelo menos 3 Audiências Públicas em cada uma das 93 cidades da região, perfazendo o número espetacular de 297 Audiências Públicas realizadas em pouco menos de um ano.

Uma segunda iniciativa adotada foi as chamadas “Visitas Programadas”: ao longo de minha gestão, de forma planejada visitei os 93 municípios da região, conhecendo “in loco” as necessidades de cada localidade, as condições das Unidades da PM, conversando com o efetivo, passando orientações e instruções, verificando aspectos relacionados à logística, entre outros. As visitas sempre geravam um “Relatório do Comandante”, que era encaminhado ao Comando de cada Batalhão para a adoção de medidas por mim indicadas e que chamava de “oportunidade de melhorias”. Também fiz questão de registrar fotograficamente cada OPM, constituindo um banco de dados valioso sobre cada lugar. Também nas visitas programadas eram estabelecidos contatos com as Autoridades Municipais ou de outros Entes Federativos com sede local: foram realizadas reuniões com Prefeitos, Vereadores, Presidentes de Câmaras, Presidentes de Conseg´s, Juízes, Promotores, Delegados de Polícia, enfim, com todas as autoridades que estivessem disponíveis durante as visitas.

Dediquei especial atenção aos Conselhos Comunitários de Segurança, valorizando o órgão e prestigiando os voluntários que o conduzem e colaboram com as forças de segurança: participei pessoalmente de inúmeras reuniões de Conseg´s em diversas cidades da região.

Preocupado com a redução da letalidade policial, realizei o primeiro treinamento de resistência à psicofadiga, que teve como público alvo policiais militares com histórico em mortes ou lesão corporal resultante de intervenção policial. O treinamento foi realizado na cidade de Pirassununga, na área do Batalhão de Infantaria da Aeronáutica. Um segundo treinamento está programado para o mês de abril do corrente, caso tenha o aval do novo Comandante.

Estabeleci com a imprensa local um relacionamento estreito e ético, não omitindo dados ou informações e sempre exigindo que fosse ofertado espaço para manifestação da posição da Instituição: diversas entrevistas coletivas foram realizadas, programas especiais com a PM foram veiculado, ampliando a visibilidade da Instituição na região.

Dei especial atenção à área de comunicação: padronizamos a nossa linguagem nas redes sociais e fizemos uso a serviço da segurança pública.

Criei o Colegiado Político da área do CPI-3, importante fórum que congrega todos os parlamentares e membros do poder executivo municipal que sejam policiais militares ou que tenham estreita ligação com a Polícia Militar, visando qualificar a discussão política do tema segurança pública.

Implantei o Conselho de Comandantes, outro importante fórum composto por ex-comandantes do CPI e de Batalhões da região, destinado ao debate e discussões de temas relacionados com o comando da região e da segurança pública de uma forma geral. Mensalmente tinha a alegria de receber para a reunião e um café cerca de 20 a 30 coronéis ou tenente coronéis, que muito me ajudaram na complexa tarefa que é comandar a região de Ribeirão Preto.

Editamos o Manual do Veterano, obra organizada por alguns oficiais do CPI-3, capitaneados pelo meu antecessor, Coronel PM Malaspina, contendo informações importantes que devem conhecer os policiais militares quando se transferem para a inatividade.

Para valorizar o veterano, estabelecemos a rotina de entregar um exemplar do Manual no momento em que o policial militar se transfere para a inatividade, em evento simples no Gabinete do Comandante: este contato do policial militar com o Comandante do CPI-3 era sempre um momento mágico e que gerava muitas emoções.

Também procurei priorizar as ações de reconhecimento e valorização do policial militar: mensalmente as solenidades de valorização eram realizadas nos Batalhões e no CPI, enaltecendo as boas ações realizadas pelos colaboradores. Os eventos quase sempre recebiam cobertura e eram divulgados por veículos de comunicação. Acrescentamos homenagens também aos profissionais da imprensa e aos policiais veteranos.

Fomentamos a filantropia: diversas campanhas foram realizadas e a Polícia Militar na região de Ribeirão Preto teve a sua imagem atrelada a ações positivas, de amor e atenção para com o próximo: foram agasalhos, brinquedos, produtos de limpeza e higiene, cadeiras de rodas, entre outros, doados a pessoas e entidades que necessitavam. No mesmo sentido, também foram realizadas ações visando atender casos pontuais de necessidades por parte do público interno (policiais militares).

Implantamos na área do CPI-3 o projeto “Polícia e Igreja” em parceria com a Associação “PMs de Cristo”, viabilizado pelo estruturado serviço da “Capelania Voluntária”. A preocupação em aproximar os policiais militares de Deus foi perseguida e, com muito sucesso, alcançada.

Iniciávamos (e não foi possível concluir) uma iniciativa denominada “Forças Amigas: Unidas para Proteger o Cidadão”, que consistia no fomento do comando regional da polícia ostensiva a um trabalho mais harmônico e integrado entre a Polícia Militar e as Guardas Civis Municipais nos municípios que possuem GCM. Foram realizadas reuniões com os comandantes das Instituições na cidade de Ribeirão Preto e na região de Franca. Ficará a cargo da nova gestão dar continuidade ou não a este projeto.

Mas houve também momentos de muita dor, angústia e sofrimento: o primeiro deles foi a morte de 3 jovens e belas Soldados em processo de formação pelo 33º BPM/I (Barretos), em um trágico acidente de automóvel seguido de incêndio no veículo que ocupavam.

Houve ainda, na cidade de Ribeirão Preto, o chamado “Caso Luana”, caracterizado pela tentativa de “linchamento moral” dos policiais militares que eram acusados antecipadamente de serem o autor de um homicídio na cidade: no mesmo dia em que tomava posse oficial (16/5), um Vereador à época organizava na Câmara Municipal de Ribeirão Preto uma Audiência Pública, da qual não me omiti em participar e onde passei pela maior humilhação da minha vida, sendo impedido de me manifestar, recebendo vaias e tendo as costas para mim virada nos poucos minutos de silencio que me permitiam tentar apresentar os meus argumentos. Na oportunidade não defendia pessoas, mas apenas exigia que se cumprissem os preceitos legais aos quais todos os cidadãos têm direito: a presunção de inocência e o direito ao devido processo legal, incluindo aí a ampla defesa e o direito ao contraditório. A tristeza deste e dos dias seguintes foi superada por um dos momentos mais marcantes da minha vida, quando tive resgatada a minha oportunidade de me manifestar, falando na tribuna da Câmara Municipal para um auditório lotado de amigos e simpatizantes da Polícia Militar.

No dia 05 de julho de 2016 sofri a minha primeira grande derrota em Ribeirão Preto: o assalto às instalações da Prossegur entrará para a história como o maior evento criminoso havido na cidade. Naqueles dias me senti impotente e, confesso, até pensei em parar e me aposentar, dada a desproporcionalidade de forças entre os criminosos e as forças de segurança. Chorei muito a perda do primeiro policial militar na minha área: os criminosos que roubaram a Prossegur mataram covardemente o Cabo PM Wilker, no 3º Batalhão de Polícia Rodoviária, que nos apoiava na ação.

Quis Deus que quase no apagar da minha gestão e diante da possibilidade de uma ação delitiva similar à que houve na Prossegur, numa ação articulada e muito bem planejada, pudéssemos não só evitar um novo crime gravíssimo, como ainda prender 9 criminosos, apreender 5 fuzis, 3 pistolas, coletes a prova de bala, rádios comunicadores, bloqueadores de celular, entre outros objetos que seriam usados no crime. A atuação exclusiva da Polícia Militar foi tão relevante que teve a deferência de receber homenagem do Governador do Estado, em solenidade realizada no último dia 13/3.

Infelizmente o último momento de tristeza no período em que comandei o CPI-3 viria quase no final dos meus dias como Comandante: no mesmo dia em que recebíamos a homenagem do Governador Geraldo Alckimin, uma nova ação criminosa ocorreria na cidade de Barrinha (um roubo a carro forte) e, no desenrolar da ação, assisti partir o segundo policial militar sob meu comando na região de Ribeirão: os criminosos, também com a covardia que os caracteriza, ceifaram a vida do jovem policial Érick Henrique, que servia em Guariba.

Deixo Ribeirão Preto com a certeza de ter oferecido o melhor de mim! Esforcei-me ao máximo para ser um Comandante presente, para ser justo, para pregar o respeito e o reconhecimento àqueles que mereciam.

Penso ter deixado absolutamente claro a todos o quanto eu amo a minha tropa, quanto me agrada estar a seu lado e defende-la nos momentos em que injustamente é atacada.

O faço, e continuarei fazendo, não por uma postura corporativista, mas sim porque estou convicto que este é o papel de um Comandante.

Encerro minha manifestação, que é uma espécie de prestação de contas, agradecendo a toda comunidade da região que me acolheu e me recebeu com tanto carinho e atenção; agradeço também as autoridades da região, que sempre me ofertaram apoio e me ouviram; agradeço a imprensa que nunca me negou espaço para que pudesse apresentar a versão da PM na notícia que envolvia o tema que nos era afeto; registro agradecimento especial também à minha equipe de colaboradores, oficiais e praças, que acreditaram em mim e que fizeram seus, os meus projetos e sonhos.

Agradeço de forma especial os policiais militares que atuam no policiamento ostensivo, realizando aquilo que em qualidade se chama de “Hora da Verdade”.

Peço perdão por eventuais erros e injustiças que eventualmente cometi: tenham a certeza de que nunca foram propositais.

Fui muito feliz aqui! Posso dizer que me realizei…

Valeu muito a pena enquanto durou…

Parto agora para uma nova tarefa: formarei os MELHORES SOLDADOS POLICIAIS MILITARES DO MUNDO, NA MAIOR ESCOLA DE FORMAÇÃO DE POLICIAIS MILITARES DO UNIVERSO.

Como diz o hino da Escola Superior de Soldados, “vivo dias consagrados, que jamais ousarei esquecer”…

Que os novos dias de fato me consagrem!!!

Ao meu substituto, novo Comandante do CPI-3, Coronel PM Washington, desejo que seu comando seja infinitamente superior e mais profícuo que o meu, pois a gente desta Terra merece isto! Estarei de longe torcendo pelo seu sucesso.

Estaremos juntos sempre!

Forte abraço a todos(as)!

Humberto Gouvêa Figueiredo